28.1.17

AS ROSAS



Nos sonhos da manhã
outros sonhos navegam.

Em confusão, por vezes.
Por vezes, limpidez.
Leve o desejo de ficar
por mais um tempo
ou para sempre
na morna fantasia
entre a recta e a curva
entre o sol e a sombra.

Livres do nevoeiro
nos sonhos da manhã
chegam as rosas.


Licínia Quitério

22.1.17

INTERIORES


Os quartos interiores guardam memórias 
que só na escuridão têm abrigo.
Abrem-se estradas, corredores,
montanhas nunca.
Desfilam objectos em pedaços,
clarões de rostos,
íntimos sopros,
falas de palavras mudas.
Por vezes a nitidez de uma janela ao Sol,
uma flor gradeada,
uma renda de gelo.

Nos quartos interiores não sopra o vento,
mas folhas secas pairam, sem tombar.
Se o nosso olhar as segue,
bailam, rodopiam,
longe da nossa mão,
longe do corpo, a mão.

São muito antigos, os quartos interiores.
Antigos e fechados.
Só se abrem a quem guardou a chave
num raio de luz a oriente 
da casa
e dos seus quartos interiores.

Licínia Quitério

18.1.17

AZUL



Salvè, benevolência do Inverno, a prometer a purificação das horas.
Os homens sempre desconfiam da Natureza dadivosa.
Afincam-se a chorar a intempérie, a enxurrada, o tufão, a seca.
Mesmo o azul os perturba, se abundante.
Ao menos uma nuvem, sua metade branca, sua metade escura, a permitir presságio de mudança.
Só a imperfeição contenta os homens.

Perfeitos os deuses, esses sim, sem mácula, sem dor, distantes, muito distantes, da pobre humanidade.

Licínia Quitério 

16.1.17

REGRESSO


Pela janela da infância o mundo entrava.
O mundo, quero dizer, o canto estridente
do canário da vizinha Celeste,
com um carrapito preso por ganchos de tartaruga.
O bater sola, cadenciado, do Júlio sapateiro,
de beata apagada ao canto da boca.
O chiar do rodado do carro de bois,
pachorrentos como se usa dizer dos bois.
Os gritos, sobretudo os gritos dos meninos da rua
que brincavam e lutavam e se insultavam,
a enganar a fome da côdea que tardava.
E os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas,
Meu vadio, meu malandro,
Ah nha mãe na me bata qu’eu na torno a fazer.
O piar dos pardais, à boquinha da noite,
disputando um abrigo nos braços enormes
do velho plátano solitário.
Noite feita, os morcegos rasando a janela da infância.
Estranhos pássaros a chiarem como ratos.
E as corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares.
Chiiu, chiiu, chiiu…
E os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão,
pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.
Quando a janela da infância se fechava, começava o sono
e nele entrava o mundo, em nova ordem,
bizarro e encantatório.

Licínia Quitério, 1992

14.1.17

PAISAGEM


Anda a paisagem cheia
de vultos deslizantes
encharcados de Sol
nas suas horas altas.
Entre o escuro e o claro
não cabem indecisos.
A evidência da luz amaina
a indigência. 
Decoradas de sombras
as vontades avançam
em corpo de mulher
em corpo de homem.
Que a estrela não desista.
Que o brilho seja manto
a cobrir a penúria
a resgatar do gelo
quem para trás ficou
acorrentado
desamado
inerte. 

Licínia Quitério

12.1.17

AS PALAVRAS


São assim.
Crescem.
Desprendem-se.
Um estalido.
Um sussurro.
Um quase nada.
Se voltam
instalam-se
no coração da garganta.
Agitam-se e
assustam.
Sabemos e sentimos
o seu tecido
não tecido
a sua forma
informe.
Na hora certa elas virão
em cordas de violino
à nossa mão
e serão corpo
nosso
entrega
voo.
As palavras.

Licínia Quitério


8.1.17

PENAS


No fio dos dias há gargalhadas
das aves de arribação
que vão
que voltam
que vão.
A minha cabeça roda
a procurar montanhas.
Uma pena debaixo da almofada.
Uma pena no negro do café.
E eu perdida no veludo da noite.
Os anjos cantam
riem.
E eu perdida entre o sorriso e o soluço.
E eu a despertar
a adormecer.
O fio dos dias a compor o signo do infinito
igual a sempre
igual a nunca.
E eu perdida
desigual.

Licínia Quitério

4.1.17

JORNADA


O silêncio do corpo é a própria ausência,
seu repouso e transparência.
No silêncio do corpo, abrem-se leques,
flores de cerejeira, águas brancas,
cumes arredondados com cheiro a seios
antes do leite.
Breve é o tempo de crescer, doce a subida,
certeira a seta na descida.
No meio da jornada, o sobressalto,
o tilintar de engenhos,
a indecisão do nevoeiro.
O corpo ali, rosto de esfinge,
pedra de sorriso,
quantos são os teus pés,
para onde vais.

Licínia Quitério

3.1.17

O ÚLTIMO POETA


Salvar ou não salvar é uma questão
De despertar
Com uma corda no braço
Ou uma pedra na mão.
Tão próxima é a foz
Que o rio não avistamos
E da nascente não sabemos
Senão o grito, o arrojo, o respirar.
Dos anjos salvadores
Restaram penas,
Alguns poemas que em estrela se tornaram.
Um outro, eu sei, escapou
À matança, à purificação.
Se de nome mudou
Talvez se chame flor ou
Água de beber
Ou perfume em riso de mulher.
Talvez eu seja o rio
onde mergulhe para afogar
A urgência do poema
Ou seja a corda e o salve
E lance a pedra para bem longe
E o poema seja eu que me salvei.


Licínia Quitério

Nota - em "As Vozes de Isaque" - Derivações poéticas a partir da obra "O Último Poeta", de Paulo M. Morais, da Poética Edições

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