16.1.17

REGRESSO


Pela janela da infância o mundo entrava.
O mundo, quero dizer, o canto estridente
do canário da vizinha Celeste,
com um carrapito preso por ganchos de tartaruga.
O bater sola, cadenciado, do Júlio sapateiro,
de beata apagada ao canto da boca.
O chiar do rodado do carro de bois,
pachorrentos como se usa dizer dos bois.
Os gritos, sobretudo os gritos dos meninos da rua
que brincavam e lutavam e se insultavam,
a enganar a fome da côdea que tardava.
E os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas,
Meu vadio, meu malandro,
Ah nha mãe na me bata qu’eu na torno a fazer.
O piar dos pardais, à boquinha da noite,
disputando um abrigo nos braços enormes
do velho plátano solitário.
Noite feita, os morcegos rasando a janela da infância.
Estranhos pássaros a chiarem como ratos.
E as corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares.
Chiiu, chiiu, chiiu…
E os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão,
pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.
Quando a janela da infância se fechava, começava o sono
e nele entrava o mundo, em nova ordem,
bizarro e encantatório.

Licínia Quitério, 1992

1 comentário:

LuísM Castanheira disse...

infâncias (in)felizes, num mundo já tão distante...
o poema, datado, trás memórias dum tempo obscuro, pobre e rural.
um profundo sentir.
abraço

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