29.11.16

NOVO LIVRO



Segunda apresentação

CASA DE NUVENS



Era uma casa como as outras mais,
uma casa coberta, uma casa fechada,
uma casa aberta, uma casa aprumada.
Nem nova nem velha, uma casa decente,
uma casa prudente, uma casa de telha.
Uma casa é um cais onde aportam saudades,
onde amarram barcaças, onde há gente que entra,
onde há gente que sai, onde há gente que cai,
onde há gente que vai procurar outra gente,
em busca de guarida, de beijo ou de comida.
A casa de que falo, igual às outras mais,
tem um grande defeito, abriga tudo a eito.
Não há vento que sopre, não há chuva que caia,
não há bicho 
perdido, não há mísera folha
que a casa não acolha, que a casa não resguarde.
De tal sorte oferecida, a casa imaginada
é a casa preferida das nuvens viajeiras,
essas doces intrusas, que em dias de procela,
entram pelo telhado e espreitam à janela.
Assim já se percebe que a casa que pareceu
igual a muitas outras, mais não seja afinal
que o castelo das nuvens, que a morada do céu.


Licínia Quitério

24.11.16

AZUL



É no azul que me prossigo
me desperto

Junto as mãos
e chamo os pássaros
da infância
com palavras-asa
altas tresloucadas
palavras-pedra 

robustas apressadas
palavras-corpo
trementes ofertadas


No azul me adormeço
e a desobediência dos pássaros
é  o negrume que me perpassa 
o sono 

Nunca saberei se no azul
permanece
aquela história de  encantar
que falava de pássaros de olhos azuis
iguais aos teus
mãe
que eram verdes e falantes

Licínia Quitério

22.11.16

A NUVEM



Na minha rua há casas
onde se acoitam cansaços
de rostos sempre iguais,
de trabalhos sempre iguais.
Debruçadas nas varandas
há solidões de fim de dia
ou melhor
de dias infinitos.
Já tão distante o berço,
já tão esfriado o leito,
já tão esquecido o amor.

Também há casas
com olhos de crianças.
Sabe-se lá o que vê
uma criança quando ri
ou quando chora
ou nos olha de soslaio
por entre as malhas
apertadas do horário.
As crianças são mansas,
têm gatos e cães
e muitos telecomandos
e são terrivelmente sossegadas
enquanto aprendem a exterminar
exterminadores
e monstros fumegantes
dominadores de novas galáxias.

Pode a terra tremer, 
pode a fome apertar
lá longe
longe como dizer Japão
ou Indochina, 
nas casas da minha rua 
não se passa nada.
As pessoas entram,
as pessoas saem
e dormem e acordam
a horas certas.
Interrogam-se apenas
quando uma nuvem passa
debaixo da janela.
Dizem que virá ela fazer.
Nessa noite só vão adormecer
depois de verem que não há nuvens
debaixo da cama.
Temem que uma nuvem
as leve enquanto dormem.
De resto, pode a terra tremer,
pode a fome apertar
longe
muito longe
aqui não se passa nada.

Licínia Quitério

14.11.16

A ONDA



Uma onda muito negra avança sobre o litoral das nossas vidas.
Há quem não dê por isso.
Há quem faça de conta.
Há quem seja da onda.
Não vamos ter medo.
Não vamos adoecer.
Não vamos calar.
Não vamos adormecer.
Somos daqui do lado da beleza
do lado da liberdade
do lado humano dos homens e das mulheres.
Despertos estamos.
Olharemos a grande Lua.
Defenderemos a Terra.
Não passarão.

Licínia Quitério

11.11.16

A IGNORÂNCIA



Nesse tempo eu pouco sabia 

De filósofos ou de colheitas tardias
E menos ainda de contas correntes
Ou de novas galáxias
Redondo era o mundo e
Eu girava girava
Dançava dançava muito
Em redor de mim
Em redor da saia que rodava
E chorava porque
O coelhinho branco morrera 
Ou o rapaz afinal tinha outra namorada
Queria que o meu cabelo embranquecesse 
E eu fingisse de velha
De uma velhice mais bonita
Que a minha mocidade
Nada sabia da morte das abelhas
E menos ainda da vida 
Depois de muitas mortes
Conhecia vagamente os nomes de cidades
E sonhava com elas
Porque havia de as visitar
No princípio de todas as primaveras
Eu era tão ignorante 
Nesse tempo 
Agora sei os nomes das árvores da minha rua
O tamanho da estrela maior
O tempo de vida do amor
E muito mais
Confesso que pintei o cabelo 
Da cor da mocidade
Que era tão bonita e nem isso eu sabia

Licínia Quitério

4.11.16

A TRANSPARÊNCIA



Acordo cedo e tropeço no silêncio da casa,
como se fosse de noite,
como se fosse Domingo.
É um silêncio que se prolonga pela rua
e tem a transparência dos véus das concubinas
resgatadas por Sherazade.

“Ouvi agora, senhores, uma história de pasmar".

Assim começa a história.
Um ramo  de histórias.
de pedaços de histórias
que eu ouvi contar
há muito muito tempo,
quando ainda não havia silêncio pela casa
mesmo que fosse de noite,
mesmo que fosse Domingo,
e eu nem sabia da transparência dos véus,
o que só aconteceu mais tarde
quando o livro de histórias acabou
e eu me perdi no labirinto.
Esse sim saltou do livro
e fez-se  a casa e os corredores da casa
que percorro e torno a percorrer
sem que ninguém me veja,
bem oculta na minha própria transparência.

Agora ouvistes, senhores, esta história de pasmar.

Licínia Quitério

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