27.5.16

AS PEDRAS


Sobre as pedras passaram muitos anos,
a pele acrescentada de líquenes,
casulos, sujidades.
Viram trabalhos de homens
e ganharam saberes, utilidade.
 
Já foram muros, torres, fortalezas.
Se não se desmoronam, engrandecem.
Contam o tempo no desfolhar das árvores.
Aguardam pacientes o despontar dos gomos.
Guardam segredos de quem passa.
Resistem à tortura do aço e da inveja.
As árvores escutam o seu canto 

a louvar a liquidez do mar,
a acalmar a avidez do mar.
Cantam as pedras, choram. 
Nenhum homem as ouve.
Outras pedras virão
e em pleno do dia cantarão. 

Licínia Quitério

24.5.16

TENS TUDO


Tens tudo. 

Tens o vento de ontem, a chuva de amanhã. 
Tens o que sabes e é tanto. 
Podias se quisesses ter o comboio que te levou 
do princípio do mundo até ao fim do mundo.
Na asa da tarde os teus olhos vagueiam.
Vais rua abaixo e sorris porque tens um barco
lá longe carregado de vida, carregado de sal.
O teu contentamento é o vestido de luto
da andorinha a rasar-te a janela.
Incorrigível, estas histórias contas 
e as outras, das casas, dos bichos, 
das cidades, das mulheres, dos homens.
Contas até das horas que te vão contando.
Mentiras, muitas, de verdade poucas.
O que te importa é o céu ali à mão.

Licínia Quitério

17.5.16

MUDAR O MUNDO



Mudar o mundo assim
com um mover de mão
dar cor às folhas mortas
pintar um rosto no vidro da janela
subir a crina do cavalo até à nuvem
descer a nuvem até ao rés do prado
e mais
e mais
fazer e desfazer
derrubar reerguer
desconstruir
reinventar a inicial vontade de mudança
e não parar 
que parar é viver sem saber 
das muitas mortes por haver
Não paro e escrevo vida
com as letras de fonte

e finjo que não sei
da carne dos proscritos 
de mãos imóveis 
no gume das navalhas
atravessando o mundo que não muda

Licínia Quitério

9.5.16

O VIZINHO INVISÍVEL



Quando poetas se dão a prosas e se traduzem  acerca de suas vizinhanças.

É um convite, é um convite.


Licínia Quitério

8.5.16

NUM VERSO LONGO



Num verso longo é que se joga a vida
Um verso longo e branco com sabor a caminhos,
a lonjuras
Um verso de palavras sonoras
a tilintarem nas esquinas 
gastas pelos corpos 
vivos de manhã
e à noite adormecidos
Jogar às escondidas, fechar vogais, abrir vogais,
gritar ditongos ou cantá-los ou sofrê-los
Das consoantes fazer cordas, saltá-las, 
repeti-las, ignorá-las
O verso é longo e a vida
perdeu o gosto de esperar
Melhor deixá-lo ali na alvura da folha
a jogar com as palavras
um dominó de velhos à tardinha
antes que o sol se esconda
e o verso se recuse

e emudeça

Licínia Quitério

5.5.16

DIA A DIA



O dia a dia é um vulgar objecto
O charco a afogar os pés ou
A nuvem encostada à imaginação
A força nos braços ou os braços sem força
O carro que desce a rua ou o velho que a sobe
O dia a dia é o que passa diante dos meus olhos
E mais o que passa por dentro deles
E o que invento e faço e desfaço
Sem sair do lugar sem contar
A usura dos dias
E o dia a desfilar
Mais um dia outro dia
A somar a somar

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