20.12.16

O TREMOR


Desde a estrela, desde a lua,
a noite se acendeu e
os homens perderam a cegueira.
Esperaram o dia, os corpos
a vibrar de um tremor novo
que não era voo, nem corrida,
nem salto de animal,
nem ondear de mato.
Era um trovão, um rio, um ardor,
uma pressa e um sossego.

Desde que o fogo aconteceu,
o frio fez-se calor e a palha ardeu,
como se fosse raio que caísse.
Era outro o dia que nascia, 
embora houvesse a noite.
O tremor dos homens fez-se febre
e a pele pediu a pele.
No calor do lume se encontraram,
no peito uma batida de tambor.

Hoje é o lampião que acende a noite.
Os homens perderam a memória
e quando dizem fogo ou estrela
não sabem do tremor que os percorreu
no princípio do espanto,
no alvor da caminhada.
Dizem amor ou dizem filho, mas
esqueceram a noite que acendeu o dia.

Licínia Quitério

2 comentários:

LuísM Castanheira disse...

quando era criança, o que mais me encantava na noite de natal, era a fogueira a arder, no adro da igreja.
toros enormes que duravam até ao novo ano. (era a razão para ir à missa do galo)
gostei muito deste "fogo" que arde e se vê (lê).

Era uma vez um Girassol disse...

Lindo poema, aqueceu a alma, Licínia!
Um alegre Natal e um excelente ano de 2017!
Beijinho

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