30.8.15

DOLOROSOS OS TEMPOS



Dolorosos os tempos da cobiça
do oiro nos filões, nas profundezas.
O tempo dos homens contados 
à saída da mina como se fossem
vivos, de braços, de pulmões,
de esperanças nunca ditas.
Longuíssimos os dias de escuridão e pó,
no temor da vingança dos guardiões
da terra, a poderosa, a violada.
Após a derrocada, um silêncio
maior reclina-se sobre os campos
onde o escombro sorri ao novo escombro.
A mina guarda os homens que faltam
à contagem, agora iguais ao oiro, à escória,
indiferentes ao pó, ao choro dos vivos,
à maldição dos ogres.
Na paisagem perdura a escrita do abismo.


Licínia Quitério

22.8.15

DO VERÃO


São os transeuntes do Verão. 
Pairam aromas de encontros 
furtivos, excessos irrepetíveis, 
incêndios na diagonal do caminho. 
Vão, num allegro, ma non troppo, 
que a evanescência dos corpos 
atrai uma ligeira febre. 
Todo o desacerto se apaga. 
Arde um fósforo contra a brisa da tarde. 
A intuição diz-lhes: é tempo 
de começar a morrer.
Sentem pressa. 
Vivem.


Licínia Quitério

18.8.15

A MENINA



Eras tão bonita,
menina do acento circunflexo
a fazer de sorriso.
Bonita e sossegada.
Triste não te direi,
que alegre e triste
se fará o teu tempo
de viver.
Do outro lado do vidro,
os teus olhos enormes
eram pequenos 
para tamanho espanto
de crescer.
Deste lado do vidro,
estava eu.
Olhei-te,
decorei-te,
guardei-te no meu livro
de aprisionar infâncias
para não envelhecer.
Não sei ainda
que nome te darei.
Se uma fada madrinha
por aqui passar,
há-de chamar por ti
e, ao ouvi-la, tu responderás:

Esse nome sou eu.

Na sombra dele tu serás.

Licínia Quitério


13.8.15

O DILÚVIO


Toma cuidado, amigo.

Por debaixo das pedras
há invisíveis animais,
seres de antes do dilúvio,
que houve dilúvio,
não duvides.
Depois dele ficámos assim,
emparelhados,
aturdidos de águas,
incertos no andar,
no nadar, no voar.
Salvos fomos e continuamos
a aguardar a outra salvação.
Memória não temos 
do que fomos, do que soubemos.
Disse o santo, irmão-peixe,
irmão-pássaro,
irmão-tigre,
na sua tarefa de santo
de prometer irmandade,
na sua ignorância de santo
que de feras não sabe.
Isso foi muito depois das águas,
castigadoras águas,
muito depois do gelo,
muito antes do fogo 
que virá.
Amigo, repito,
toma cuidado,
não magoes os seres 
dormentes sob as pedras.
É preciso que eles vivam
quando vier o fogo
e a ele sobrevivam,
invisíveis e mudos,
guardadores do segredo
do antes 
e do antes do antes
e do depois
e do depois do depois
e da inútil paciência dos santos
e da inútil impaciência dos pecadores.

Licínia Quitério

7.8.15

LUA


Candeia acesa no recorte animal dos montes.
Súbita aparição de um deus do fogo.
Abre as asas, faz-se Lua.
Sobe a maré, a erva cresce, a criança nasce.
As cobras soltam os assobios de Verão.
As mulheres fecham nas mãos os seios,
não vão as cobras sugar-lhes o leite.
Os meninos palram e riem à Lua,
na transparência dos telhados.
Cavalos selvagens galopam.
Têm olhos vermelhos de Lua Cheia.
Só o Sol os livrará do feitiço da noite.
As águias dormem nas alturas.
Sabem que a Lua lhes cuidará dos filhos,
lhes abrirá as asas,
os fará voar até à casa do céu 
onde nascem os anjos
que são Luas,
que são espelhos de estrelas,
que fazem crescer as searas,
os cabelos,
os desejos nocturnos dos Homens.

Licínia Quitério

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