23.7.15

A MUDANÇA


Quando o braço da memória se alonga 

e nos arrasta para um canto escuso
de uma rua escusa
de uma terra perdida
do cuidado dos homens, 
é que sabemos da mudança,
do declínio, do permanente abuso,
na parca solidez dos muros,
na frágil fortaleza dos portões.
Quem somos e ao que vimos
são interrogações
presas no cimo das vigias,
cegas agora as vigias,
desarmadas, 

esperando ainda os inimigos 
que já não sabem nomear.
Tanto mudou a rua, 
tanto mudou a terra,
tanto mudámos nós,
e o sonho permanece.

Licínia Quitério 

19.7.15

AMOR



Confiar nas sombras é adivinhar os corpos. 
Melhor que adivinhá-los, 
é lembrá-los. 
Já não pesados, não quentes. 
Corpos que flutuam, 
homens, peixes, pássaros, 
tanto faz.  
Corpos, 
seres que amamos 
e são sombras. 
Chegam nas ranhuras do silêncio.
São da cor do fumo. 
Bailam, 
tocam-nos, 
transformam-se, 
partem com as nuvens. 
Há os que não regressam, 
para nossa infinita tristeza. 
Há os que voltam sempre, 
ao mais ligeiro sopro do vento norte, 
na primeira noite da Lua nova. 
Amor, 
é a palavra que soltamos.


Licínia Quitério

14.7.15

OS DEVORADORES


Consumada a aridez dos adros,
os devoradores violam o sangue das cidades,
as águas que das ilhas correm,
a seiva cálida das oliveiras,
o pão das messes, a carne dos rebanhos.
Insaciáveis, por castigo, nasceram.
Imitadores de Prometeu, 
porém ignorantes do fogo que ele via, 
desprezam os deuses e as águias.
Seguros da fortaleza de seus corpos,
do fígado fizeram coração 
e dele o oiro da passagem.
Porque o Livro dos Mortos lhes fugiu da mesa da devora,
não sabem que o barqueiro não o aceitará. 
Continuam,
a fome lhes crescendo, 
os homens abusando.

Licínia Quitério

12.7.15

O SILÊNCIO


O silêncio invadiu a manhã de domingo. 
Ainda que não seja domingo, sabes? 
O silêncio tornou-se um velho demente 
à procura do calendário. O seu hálito 
mata as abelhas que se atrevem a zumbir, 
ainda que não seja domingo, 
nem esta a estação das abelhas. 
A mãe do silêncio tem um nome 
que só se escreve com o pó 
das botas dos tiranos. Este silêncio 
pariu um ovo e o ovo pariu um bicho 
e o trabalho do bicho é abocanhar 
as manhãs de domingo 
e não lhe importa que não seja domingo. 
O que ele quer é calar o zumbido 
de uma abelha que resiste 
numa sala de luz, 
além, 
muito longe do território do silêncio.
Licínia Quitério

7.7.15

AS LUZES


Que as luzes da noite 
branca 
acalmem o furor dos homens,
deitem frutos no colo das mulheres,
aos meninos
 ofertem planetas.
Que todos dancem de roda,
corpo a corpo, mão na mão,
respiração contra respiração.
Que no centro do abraço se desdobre
a árvore maior das suas vidas,
a que bebe da terra
 a água toda
e com ela faz pássaro e floresta, 
canção de ninar ou combater.

Será este dizer uma oração
a um deus que há muito se ausentou,
mas antes, condenou à insanidade 

os dias e os meses.
E os anos foram raiva e foram medo,
e dentro de alma se inscreveu
a cicatriz do tempo 

que não foi mais do que o desejo dos filhos por haver.


Licínia Quitério

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