30.3.15

UM BARCO PRESO AO CABELO




















Digo-te,
a miúda tinha um barco preso ao cabelo.
O mar, esse, estava preso ao barco.
Quando a miúda corria,
o barco deslizava,
e o mar com ele,
digo o mar ou
o pedaço de azul 
que me cabia nos olhos
a seguirem a miúda
que corria, 
e não sabia
do barco preso ao cabelo,
do mar preso ao barco,
dos meus olhos
a segui-la,
livre, 
solta.

Licínia Quitério

27.3.15

EU A ROLAR NA PAISAGEM


Eu a rolar na paisagem, 
dormente, 
dizendo, vamos.Eu levada pelo rodado do dia, 
a pensar nas árvores derrubadas, 
no grito das árvores, 
no suor do lenhador, 
na raiva do lenhador presa à fome dos filhos.
Os gritos das árvores acesas, 
o rosto malvado do lenhador, 
a panela ao lume, 
a fervura do caldo.
Benditas árvores 
que são lume 
que água não apague, 
que caldo é muro contra as fomes.
A chaga no peito do lenhador, 
e a mulher por detrás do fumo, 
por detrás do caldo.
Ah não há fome que resista 
à fúria do homem vestido de lenhador, 
a enfrentar o pavor das árvores.
Logo mais,
o silêncio. 
Por detrás do fumo, 
o rosto da mulher, 
da vestal manchada de nascimentos, 
a apagar-se.

Licínia Quitério

25.3.15

HERBERTO HELDER


Não, não entendi, não amei a poesia de Herberto Helder nos meus anos verdes de leitora. Deixei de lado, ali no canto dos "obscuros", dos que sabia um dia haveria de ler, amando. Foi tarde que aconteceu, não sei quando nem como nem porquê. Lembro-me de ter folheado, displicentemente, um dos livros do canto e pensar, como é que eu não vi isto, o tempo que eu perdi. Foi daí que me apaixonei pelo HH, que passei a pensar nos seus poemas mesmo sem os ler, qualquer coisa que eu não sei explicar, como se a força dele também estivesse em mim e me guiasse as palavras em direcção aos seus ritmos de terras negras e águas ferventes. Talvez eu esteja atacada de algum lirismo serôdio, tão desajustado do pulsar de HH, mas a sua "morte sem mestre", não a do livro que me inquietou, me causou estranheza, mas a morte dele, deu-me uma dor de perda de algo, ou de alguém muito amado, mestre e guia, um homem grande, triste, bebedor de abismos, passageiro ardendo, indo.

Licínia Quitério

20.3.15

DIA DE ENVELHECER


Um dia de envelhecer, 

um daqueles dias cor de ferrugem, 
com sombras muito oblíquas, 
mãos pendentes corpo abaixo, 
as costas dobradas na subida, 
na boca o gosto acre de aluviões.  
É preciso que o diga, 
por estas ou por outras palavras, 
eu não sabia o que era envelhecer 
antes de passar pelo portão da casa, 
um portão de ferro da cor do tempo, 
um trabalho de ferreiro, 
de pé à boca da forja, 
o suor a arrefecer-lhe as axilas, 
os músculos do braço mais cheios, 
menos cheios, 
e aquela mão enorme, 
dona e senhora do martelo, 
a bater, a bater, 
e os gritos do metal em brasa, 
a ceder, a estirar, a dobrar, a curvar, 
sem quebrar, 
que o ferreiro conhece o limite 
e ousa bater, bater.
Nos dias de envelhecer, 
quem passa pelo portão 
e nele prega o olhar, 
fugaz mas firme o olhar, 
soletra fogo com letras de rio 
e afasta-se 
com o verbo apagar por entre as pedras.

Licínia Quitério  

16.3.15

É DIA


É dia e ao marinheiro amanhece um barco carregado de esperança. 
Nada pode parar esta viagem.
As mãos são remos de oiro. 
O vento o peito enfuna e faz-se vela.
Não lhe importa que praga, que feitiço.
Um barco de virtude não se teme, navega. 
A proa é rosto e a popa o outro lado desse rosto. 
Entre os dois, um corpo que é sorriso e canto de ninar.
Pela água vai o barco. 
Vai e voga. 
Voa.
Dos remos de oiro vão saltando lumes, faúlhas, cintilações da sombra.
Solto, audaz, o barco avança. 
Não sabe de destino. 
Vai, carregado de esperança.
Outro dia não há. 
É o que sabe.

Licínia Quitério

8.3.15

O FAZEDOR DE PAISAGENS


Dizias casa grande, e  abrias 
os braços,
de parede a parede, 
como se casa fosse de verdade. 
Quem te olhava acreditava na precisão do gesto 
e julgava-te a abarcar o mundo, 
que só podia ser tão vasto 
como a vontade de o saberes. 
Perto da casa havia o mar e, 
de o pensares, 
os teus olhos ficavam verdes de algas, 
e azuis de sol, 
e cinzentos de procela. 
Se havia árvores de vento, 
em redor da casa, 
tu o dizias na tremura dos ombros.
Quem passava afirmava, 
esta é a casa, 
este o mar, 
estas as árvores do vento. 
Tu não te sabias fazedor de paisagens, 
mas continuaste a esboçar lugares 
que depois albergavas 
na casa maior do coração.


Licínia Quitério

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