25.10.14

CANTANDO


Bichos afogados, circulantes, espelhos no interior das pálpebras, viste-os. 
Tacteia agora este grão, este sal, esta flor marítima. 
Nasceu noite fora no limiar da minha porta, à beira-mar, sempre à beira do mar. 
Leva-me amarrada ao teu carro de vento, a flor de sal no meu cabelo. 
Os retratos dos afogados empalidecem, diluem-se, e tu não saberás que forma tinham quando vivos, quando estátuas, quando gritos de correntes. 
Há sangue novo nos pássaros, ouves, é deles o sopro de subida, no bico trazem uma palavra, sempre a mesma, do nascente das maçãs ao poente dos cravos. 
Hão-de soltá-la no coração da tempestade, e tudo será água, tritão, sereia, e um homem só sentado na praia, cantando.

Licínia Quitério

18.10.14

VÃO


Há homens que se vão embora, se cansam, desamam, desgostam e vão, sem dizerem uma palavra, sem um lamento, sem um destino.
Vão.

Há mulheres que ficam, amarram os filhos, choram, soltam imprecações, gritam, dizem és tal e qual o teu pai.
Ficam.

Os homens que vão transformam-se em gatos vadios, de telhado em telhado, chamam as gatas quando o cio aperta, não esquecem a casa, rondam-na sem serem vistos, esquecem os filhos quando crescem.
Vão.

As mulheres que ficam transforma-se em galinhas, de tanto abrirem as asas, debicarem à cata de alimento, cacarejarem.
Ficam.
Há mulheres que se cansam, desamam, desgostam, procuram esquecer o homem amado, o filho que não quiseram.
Vão.
As mulheres que vão transformam-se em cabras, procuram os cumes, saltam de penedo em penedo, rejeitam os machos, saboreiam a aspereza da erva, descem à planície, às ocultas da noite, que os homens e as mulheres querem açoitá-las.
Há homens que vão ainda que fiquem.
Há mulheres que ficam ainda que vão.
Chamamos anjos aos que vão e não ficam, ainda que fiquem e não vão.
Caem.

Licínia Quitério

12.10.14

ATRAVESSAR


Atravessar a rua como se fosse rio e navegasse.
Atravessar o rio como se fosse pena e me levasse.
Erguer o corpo ao céu em jeito de ave que voasse.
Desafiar o dia, chamar-lhe noite, pedir-lhe contas dos trabalhos nunca feitos, da escuridão das ervas, do torpor dos órfãos, das manadas dispersas, do brilho obsoleto das espadas.
Quem dera adivinhar o ponto de viragem, repor, recompor, religar, desenredar o fio da meada, perceber o recado da chuva na vidraça.
Voltar se for preciso a atravessar a rua como se eu fosse o rio e me salvasse.

Licínia Quitério

2.10.14

AFASTA-TE



Afasta-te dos mentores das tempestades. Podem ser a leveza de um chuvisco e tu, incauto, deixas-te molhar. Ou golpe de sol e deixas-te abrasar. Ou a brisa e deixas-te levar. Depois vem a torrente, o incêndio, o furacão. Foi o instante que te derrubou, traiu, violou. Dormia o medo nos teus vasos secretos e tu foste o peito dado às balas, a comoção das feridas, o choro dos salgueiros. Foge deles, abriga-te, dorme se for preciso, mas não creias, não confies, não confundas o doce com o visco. Cairás de novo, até que chegue o dia de saberes o mel, a calmaria, a rectidão das pautas, a alegria das praças. Se nada mais souberes fazer, recorda os hinos de madrugar, e canta, canta, que os danados da noite não suportam o canto, enlouquecem e vão.


Licínia Quitério  

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