28.5.14

NÓS


Não somos mais que este país de sol e sombra, a arder, a gelar, valentaço e brigão, amedrontado e frouxo, muito sexo, pouco sexo, muito siso, pouco siso, de multidões a celebrar ou a apupar o que foi, o que há de ser, o que nunca será. Tudo verde, muito verde, enquanto a seca vai, a seca vem, que assim se fazem as cousas, assim se cumprem as vidas. Somos assim, mais de riso que sorriso, mais de soluço que choro, muito guardados em nós, que de aberto nos basta este céu escandaloso que apetece fechar na gaveta dos fundos e tirá-lo de lá, mais comedido, no dia da festa que fazemos, bem ao nosso jeito, sem cuidar de saber que jeito é esse que dizemos nosso. Somos povo, povoléu, populaça, bem calhados na troça e na chalaça, a rimar, a trautear no banho as canções de antanho, as que ficaram presas no ouvido, húmidas do suor das madrugadas que tivemos ou não tivemos, conforme a história a ser contada ou a ser calada, conforme o dia acabe vestido de sossego ou de veneno. Somos assim, iguais a outros mais, mas sempre de nós mesmos desiguais.

Licínia Quitério 

21.5.14

A CHUVA



A chuva salva do deserto, condena à enxurrada. Águas de todo o ano, leves, violentas, poalha e corda, refresco e inundação, rega e aluvião. Desejo da terra, repouso do afogado. A chuva dá a erva e a borboleta e as apodrece e mata. Tal qual a doçura do amor, a desmesura da paixão. Da raiz à casca morta, tudo na árvore se ri e se alumia, quando a chuva a toca. Evanescente a voz da chuva nos beirais da vida. Nós, no centro de todos os círculos, recebendo a chuva. Nós, na orla da abundância, inquietos, pela seca, pela cheia. Não pensar destino, pensar chuva, deixar-se ir, desaguar.

Licínia Quitério

14.5.14

O HOMEM CONSTRÓI


O homem constrói. É de sua natureza fazer a casa, as casas, a cidade, as cidades. Faz e acrescenta e tudo torna mais largo, mais alto, muito muito mais alto. Babilónias vão crescendo e morrendo, enquanto os homens misturam suas falas, suas preces, suas pancadas no metal, na pedra. Orgulhosos são das obras conseguidas. É seu destino construir, subir, dizer eu fiz, eu sei, e não parar, que o mais fugaz descanso pode trazer a queda, a derrocada. As árvores observam, estendem braços, cabeleiras, sabem da construção e do seu tempo. Ocupam-se a desenhar no céu caligrafias invisíveis que contarão como tudo começou e os homens se fizeram fábrica e tijolo, tijolo e fábrica, e o orgulho se fez dor e a dor sossego e só as árvores ficaram, pode-se dizer, em carne verde e viva. 


Licínia Quitério

9.5.14

MOINHO


Estás aí, parado, exibido, e a turba a dizer foi assim, já não é. Em ti a memória da dureza do grão, da toada do vento, da moleza da água, da mudez das mulheres, na sementeira, na debulha, na ordenha do gado, na lavagem da roupa, no linho, na renda, na descoberta dos homens, a parir, a ajoelhar, a abençoar, a suplicar, a adivinhar, a amaldiçoar. Aí, parado, és sombra, assinatura, marca, nostalgia, vizinhança, anúncio. Moinho, país, à beira água, na lembrança do grão, na perdição do oiro. Conquistador do vento, sedutor, seduzido, perdido na paisagem, na promessa de flores, ou de grãos, que a seara é vasta e a ceifeira não falha.

Licínia Quitério

7.5.14

TARPEIA


Minha rocha tarpeia, meu soluço de inverno, pélago, desabrigo de fugitivo, inclemência, tremor nos invisíveis fios, minha vocação de abismos e alturas, só princípio e fim, minha ignorância absoluta de crime e castigo, minha impaciência para a normalidade dos dias, meu incontrolável desejo de partida, minha incauta memória que me trais e me alertas, me ergues e me tombas, me reergues e escreves, com a minha letra, infindáveis cadernos de folhas secas, de humidades, a dizerem da aventura de viver entre o voo e o mergulho, sabendo da tarpeia e a desprezando.

Licínia Quitério

6.5.14

CONTA-ME



Conta-me a história daqueles anos em que as tuas pernas cresciam mais do que o amor que era então uma cor difusa, um brilho suave, por vezes um clarão que logo se apagava dentro do teu peito, esse peito enorme em frente ao mundo, sem temor, sem rancor, ainda. Devagar, que a pressa de crescer esmoreceu e o melhor é estar sentado à beira vida, reclamando a memória, refazendo os caminhos nunca feitos, as paixões ou os seus lampejos. Diz-me das caixas onde guardaste as conchas, os recados, as canções proibidas, as certezas de que as flores conservariam a cor e o perfume. Sei que já não podes usar as palavras antigas para nomear o que passou. Ninguém te entenderia, apenas eu que ensurdeci e aprendi a ler nos olhos dos que passam, emudecidos, ausentes, num mundo que perdeu as dimensões, quem sabe virtual, quem sabe virtuoso. Conta-me, que eu já esqueci, que tamanho tinham as tuas pernas e as minhas no tempo de começarmos o amor. 

Licínia Quitério 

3.5.14

O ANÚNCIO


Isso foi no dia do anúncio, quando soubémos de ti porque era outra a música, toda feita de lava e de espuma, e os rosários passavam de mão em mão, tecendo a prece que se chamava Ganges ou Éfeso ou ladeira dos milagres, indistintos nomes de lugares indistintos, agora que a música nova os inundava e os rosários eram mesmo de rosas como antes não se vira, perfumadas, vivas. De esse dia pouco ainda se sabe, nem dos homens, nem das mulheres, nem dos frutos, nem das abelhas, nem dos trabalhos, se é que os houve nesse dia. Sabemos que outro haverá, que uma vez acontecido voltará,  conforme ao que foi, igual, o mesmo, porém, de tão distante, não o reconheceremos. Continuaremos, mansamente, a pousar o desejo nas mais altas pedras, a mão em pala sobre o olhar, pronunciando mares e caravelas.

Licínia Quitério  

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