28.8.13

VEM COMIGO


Vem comigo. Há um caminho 
de vontades que nunca pisámos. Calça as sandálias de atravessar as grécias. Desta  vez não persigas os cervos que eles te fugiram para sempre. Dá-me a tua mão e sente na minha a brancura das tardes que me fizeram pitonisa das estradas de breu.  Vamos convocar o brilho de um astro para este degredo de espadas embainhadas, de cisnes cantores. Pronunciaremos amor em todas as línguas dos homens até à revolta dos cegos, dos deserdados, dos dementes. Vem pelo caminho infinito da vida e da morte dos mundos. Tens de jurar que não pronuncias palavras de regresso. Nem de perdão.

Licínia Quitério 

23.8.13

LEÃO



Ah se eu te contasse, leão, a sede da savana, o choro das crias, a solidão das fêmeas, a fúria dos machos, o susto das presas, a morbidez dos caçadores, se eu te contasse, leão, e fosses carne e pelo e vida inteira, regressarias ao teu tanque, vestirias a pedra, e a água escorreria, em soluços, da tua boca aberta, da tua língua esquecida do sangue, vagamente lembrada dum bocejo, na tarde quente dos leões que passaram, que passaram.


Licínia Quitério

20.8.13

ESTE CALOR



Este calor impróprio a lamber os telhados, a abrasar as copas, a atear as raivas, a beber os charcos, a dizer áfricas, desertos, fomes sem lágrimas, ervas vermelhas, êxodos. Também doçura, sumo, suor, sossego, sedução, sesta, serão de lua, cante. Só o gelo é igual.


Licínia Quitério

15.8.13

A LOBA



Ali estavas, olhando-me. Breves segundos para sabermos uma da outra. Havia a rede, a minha perturbação, a tua perturbação. Lá vives com a tua alcateia, cá vivo com a minha. O teu cercado é vasto, o meu cercado é vasto. Havemos ambas de saltar a rede, uma noite, quando a Lua nos chamar.

Licínia Quitério

12.8.13

A MUDEZ DOS DESERTOS


Insectos insaciáveis, corpos do nosso sangue em outros corpos, chegam enxames de palavras. Trazem nas patas toda a seiva, toda a luz, toda a aspereza dos matos invocados em vão. Em nossas bocas libertam-se do pó dos caminhos, da acidez dos doentes, do arrepio das lâminas, da rouquidão dos efebos. Demoram-se a adejar nos nossos vãos, soltam zumbidos de árvore, aflições de guitarra, sobressaltos de madeira, silêncios de capela. Quem dera poder amá-las, dobrá-las, torná-las agradecidas servas da mudez dos desertos. Reconstruir, palavra por palavra, o tecido sonoro das ágoras. Sem pressa, que nada sabe de seu fim.


Licínia Quitério

9.8.13

LOBO


Olha-me nos olhos. Assim, de frente, de perto. Não me ignores, lobo. Olha-me, diz-me do teu rancor, do teu estado de bicho, da tua oculta mansidão, do teu segredo, do teu amor de lobo pela loba, das tuas Luas cheias, do teu medo de seres homem, de perderes o teu olhar de fogo, de te perderes na serra, de te perderes de amores, nas noites claras da Cassiopeia, nas dobras dos uivos que povoam o teu cio, a tua raiva, o teu poder de fera, o lobo-lobo que há em ti. Olha-me, lobo, assim de frente, assim de perto, uma única vez e não te esquecerei. 

Licínia Quitério

7.8.13

É NO COLO DAS MÃES



É no colo das mães que tangem os sinos do princípio dos dias. É o cheiro das flores do tecido das mães que alaga a pele e se faz céu e lago dos últimos dias. Pelo meio da história, o sabor do leite, a dor do coágulo, a tormenta do vinho. Depois, a insipidez do soro, a mudez dos sinos, a ausência do cheiro das flores.  Recuperado o colo. 

Licínia Quitério

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