28.5.13

ESTÁS AÍ




Estás aí à espera que o trigo germine 

como se as sementes não sofressem
da moléstia que sufoca a garganta dos rios. 
Não saberás a sede acidulada da terra 
exausta de arados rancores.
Por muitas moedas que semeies a confundir 
o grão não provarás a quentura do pão 
contra a pele do inverno. 
Sentado no veludo não sentirás 
a ternura que alaga o linho e o ilumina.
Limparás da mesa as vitualhas 
até que a bolsa te pese mais que o coração. 
A atravessar os anos o teu corpo a doer a afundar 
e as mãos vazias que o trigo não germina 
depois do joio antes do sal.

Licínia Quitério

19.5.13

ESCURIDÃO

Licínia Quitério



Sabemos que o vidro se quebrou que o candeeiro se apagou

Da luz que nos morreu passamos a dizer escuridão que um nome há de ser dado ao que nos leva ao cimo e ao fundo e sempre e sempre à vogal mais sonora do silêncio fechada em nossa mão



10.5.13

SETE


Com sede nomeio o cais e os sete barcos velhos com sete homens que chegaram por sete estradas desertas que a água lhes foi levada para sete cofres fortes fechados a sete dores sete vezes tantas vezes quantas as vozes caladas quantas as bocas seladas com sete selos de raiva em sete salas de breu
Com sede digo gaiola e o pássaro fugido e o pássaro colorido com sete penas de jaspe com sete penas de fogo
E a gaiola doirada escancarada e inútil como o cofre aferrolhado com sete chaves de cinza com sete chaves de sangue
Vai o pássaro voando com sete espigas no bico sete grãos de liberdade para sete homens que chegaram ao cais onde barcos velhos se perderam na saudade

Licínia Quitério

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