22.2.13

SIM, PERCEBI


Sim, percebi que queres nascer. Esses toques subtis na minha mansidão, essas palavras que ressaltam nos teclados ou nos ramos das árvores, essas contracções inesperadas no meu leito de pensar, esse desassossego no parapeito da tarde, tudo isso, eu sei, é o anúncio da tua urgência de chegar ao lugar de sempre, junto aos outros que acolhi e moldei e a quem agradeci com enlevo e cansaço antes de os n
omear. Serás também poema e serás o tudo e o nada de quem lê, de quem ouve, de quem se não contenta com o limiar das coisas. Eu percebo a tua pressa, o teu medo de que um dia no mundo não haja lugar para poemas ou anjos. Por agora, não te posso dizer a cor da hora de te receber. Vais aguardar, no corredor da tua espera, da minha espera, que aquela borboleta bata asas e um pólen de prata inunde o quarto do meu segredo, do teu segredo, poema.



Licínia Quitério

11.2.13

HOUVE UM TEMPO



houve um tempo em que as águas se moviam brandas 
nas vozes dos homens que murmuravam preces 
a deuses conhecidos nomeados de sol e mar e 
montanha e vento e amor de homem e amor de mulher 
e vulcão e lua e caça e caçador e tudo tudo 
o conhecido e o desconhecido o desejo e o desejado 
a fúria e a posse e o possuído e o calor da pele e 
o frio da pele e o crescimento das árvores e dos filhos 
e dos irmãos e das feras ainda por domar ainda por amar

houve um tempo houve um tempo de inocência e 
de muito azul de frutos por trincar de mares por sulcar 
de pedras por cortar de sangue por jorrar de não haver 
esperas nem demoras nem cansaço nem suor nem dor 
nem prazer nem riso nem lágrima nem gente nesse tempo


Licínia Quitério  

3.2.13

DEAMBULAR



Deambular nos álbuns do passado à procura do fio que nos explique o tecido que somos. Suportar o aperto que dizemos no peito para não dizermos alma ou outra palavra escusa e impalpável.Tudo e nada é retorno. Tudo é memória. Despojos da passagem pedem histórias e nós as construimos, linha a linha, no silêncio, que tudo o que for dito arrisca-se à verdade ou à mentira de ouvidos néscios, julgadores. Quando todos partiram, ficamos nós e os objectos. Vai-se a carne, fica o osso.  Na sombra dos salões, no mofo dos papéis, ausências se apresentam e presenças se esfumam. A imobilidade é desafio, afronta, sedução e repulsa. Revisitar. Balancear. Regressar à casa onde a luz e o sangue. Ousar o impossível.

Licínia Quitério

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