29.12.12

DESEJO PARA O ANO NOVO


Espero os dias de algodão doce
a lambuzarem os narizes
empinados das casas.
Um anjo de feira de asas de oiro
ou um belo gigante das arábias,
cada um de seu jeito, a soltarem
risadas, na colheita do açúcar
nas alturas. Da solidão das casas
nunca amadas sairão borboletas,
corações, lenços de namorados,

coisas assim, esquecidas,
aprendidas no chão das outras
casas, quando o lume era aberto
e na sala de entrada brincava
o sol com a preguiça dos gatos.

O dia do céu de novo fértil, 
das casas baixas, com portas
pequeninas para os gatos,
para as fadas, com janelas
grandes onde os meninos 
se debrucem lambuzados
de açúcar, partilhado em segredo
com os anjos de feira, com
os bons gigantes.

Licínia Quitério

23.12.12

NOITE


Há de haver uma noite
que ponha nos caminhos 

a glória dos astros
o silêncio dos bichos
a ternura  dos homens
o espelho das águas
subitamente calmas


Um átomo de amor
uma nova leveza 
um clarão entre muros
um azul de safira
a cravejar o negro
a consolar a solidão
das pedras da passagem

Será hoje ou num ano
qualquer de qualquer vida
num tempo sem relógios
de ânsias e cansaços
nem velhos calendários
em que tudo é exacto
previsível e baço

Virá a noite esplêndida
de braços maternais
com o seu pomo de oiro
o seu sabre de prata
seus sete véus de bruma
seu unicórnio branco
seu amante seu dia

Licínia Quitério

13.12.12

LADAINHA DA LUA NOVA


Lua mais nova de todas as luas
meditativa sombra
noite apagada

ausência

senhora das trevas
sono dos lobos
cegueira das encruzilhadas
protectora dos tristes
dos possessos
dos desistentes
lua dos fugitivos
dos evadidos
dos perseguidos
dos sem lei
sem sorte
sem morte
noite escura
perdão de inocentes
acalmia das dores

resignação

lua invisível
luz recusada
noite serena



silêncio 

mudez do céu
presença eterna





Licínia Quitério

7.12.12

MANHÃS


A incongruência das manhãs está nos olhares dos homens que se perderam no estio quando esqueceram as canções com chave para o sonho,  o sabor do mel de rosmaninho nas bocas das mulheres, a debandada dos  falsos profetas, a volúpia da carne das cerejas, as danças em redor do fogo, em redor da alegria. Vagos os olhares dos homens a enfrentarem a humidade das manhãs, a escrita indecifrada das nuvens, a imobilidade das casas. Esqueceram o repique do sino, o silvo do comboio, a ladainha das ciganas, o piar da coruja. Apuram o ouvido e apenas ouvem o estilhaçar de espelhos. Dizem dos olhos dos filhos verde-seco em vez de verde-mar. Tornaram a dizer putas, perdidas as amigas, as irmãs. Ainda sonham mãe, mas dizem velha ao acordar. Já viveram demais, ou não viveram, ou aguardam o abrir de uma janela, de uma porta, de um regaço onde entrar e pousar as muitas mortes que souberam. Numa segunda vida, dizem, quem lhes dera ser árvore, regato, vento, alguma coisa que cantasse.

Licínia Quitério 

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