29.12.12

DESEJO PARA O ANO NOVO


Espero os dias de algodão doce
a lambuzarem os narizes
empinados das casas.
Um anjo de feira de asas de oiro
ou um belo gigante das arábias,
cada um de seu jeito, a soltarem
risadas, na colheita do açúcar
nas alturas. Da solidão das casas
nunca amadas sairão borboletas,
corações, lenços de namorados,

coisas assim, esquecidas,
aprendidas no chão das outras
casas, quando o lume era aberto
e na sala de entrada brincava
o sol com a preguiça dos gatos.

O dia do céu de novo fértil, 
das casas baixas, com portas
pequeninas para os gatos,
para as fadas, com janelas
grandes onde os meninos 
se debrucem lambuzados
de açúcar, partilhado em segredo
com os anjos de feira, com
os bons gigantes.

Licínia Quitério

23.12.12

NOITE


Há de haver uma noite
que ponha nos caminhos 

a glória dos astros
o silêncio dos bichos
a ternura  dos homens
o espelho das águas
subitamente calmas


Um átomo de amor
uma nova leveza 
um clarão entre muros
um azul de safira
a cravejar o negro
a consolar a solidão
das pedras da passagem

Será hoje ou num ano
qualquer de qualquer vida
num tempo sem relógios
de ânsias e cansaços
nem velhos calendários
em que tudo é exacto
previsível e baço

Virá a noite esplêndida
de braços maternais
com o seu pomo de oiro
o seu sabre de prata
seus sete véus de bruma
seu unicórnio branco
seu amante seu dia

Licínia Quitério

13.12.12

LADAINHA DA LUA NOVA


Lua mais nova de todas as luas
meditativa sombra
noite apagada

ausência

senhora das trevas
sono dos lobos
cegueira das encruzilhadas
protectora dos tristes
dos possessos
dos desistentes
lua dos fugitivos
dos evadidos
dos perseguidos
dos sem lei
sem sorte
sem morte
noite escura
perdão de inocentes
acalmia das dores

resignação

lua invisível
luz recusada
noite serena



silêncio 

mudez do céu
presença eterna





Licínia Quitério

7.12.12

MANHÃS


A incongruência das manhãs está nos olhares dos homens que se perderam no estio quando esqueceram as canções com chave para o sonho,  o sabor do mel de rosmaninho nas bocas das mulheres, a debandada dos  falsos profetas, a volúpia da carne das cerejas, as danças em redor do fogo, em redor da alegria. Vagos os olhares dos homens a enfrentarem a humidade das manhãs, a escrita indecifrada das nuvens, a imobilidade das casas. Esqueceram o repique do sino, o silvo do comboio, a ladainha das ciganas, o piar da coruja. Apuram o ouvido e apenas ouvem o estilhaçar de espelhos. Dizem dos olhos dos filhos verde-seco em vez de verde-mar. Tornaram a dizer putas, perdidas as amigas, as irmãs. Ainda sonham mãe, mas dizem velha ao acordar. Já viveram demais, ou não viveram, ou aguardam o abrir de uma janela, de uma porta, de um regaço onde entrar e pousar as muitas mortes que souberam. Numa segunda vida, dizem, quem lhes dera ser árvore, regato, vento, alguma coisa que cantasse.

Licínia Quitério 

23.11.12

RUMOROSAS AS ASAS


Rumorosas as asas ou as mãos na palidez do rosto. Do meu rosto em frente à pedra, na lembrança viva da pedra, nas rosas de pedra antes vivas, latejantes, e o seu sangue quente atravessando-me os dias, do oriente ao ocaso.  Dias e noites trepidantes com a febre nas têmporas, um vidro vermelho no candeeiro, uma canção de embalar, as sombras, as sombras na parede. Um morcego, uma borboleta, as orelhas do coelho, as asas, altíssimas. As manchas no teto, os mapas dos países de ida e de volta, uma dor sem princípio, a pedra enegrecida pela fuligem que fica nas mãos quando um amor morre. Santas mãos, miraculosas, berços, catres, esquifes, doçura tanta, mágoa infinita, viandantes mãos sem corpo, no meu corpo de antes, no meu corpo presente, no meu corpo futuro, no meu copo, no teu copo, no nosso copo de todos os dias, agora e em todas as horas, vazio e pleno, ofertado e recusado. Só as mãos nos acodem, no negrume e na alvura, na cupidez e na devassa, na sede e na fome, no primeiro dia, no último dia. Sempre. 


Licínia Quitério

21.11.12

NO SILÊNCIO DE SEDA

,


Erguias  muros e sorrias nas esquinas que dobravas, deixando para trás, aflitos, os emparedados do sol. Ensinaram-te a dizer palácio e sonhavas com a seda a roçar-te a nudez. Para sempre triunfante, pensavas, aprisionada a maldição divina no labirinto indecifrável. Livre, dizias-te, saciada a fome na prata dos banquetes. Diariamente decidias da vida e morte de estrelas. Todo o poder dos mundos no toque dos teus dedos. Reinavas, marmórea, no silêncio de seda,  na mais perfeita solidão dos muros.

Licínia Quitério

11.11.12

NASCEU

OS SÍTIOS já tiveram a sua apresentação ao público, feita com a elevação que a HÉLIA CORREIA põe em tudo o que diz e escreve. Foi uma tarde de encontros e abraços e risos, dos amigos de hoje e de sempre. A Poesia foi bem tratada, bem escutada, bem festejada. O livro aí está a dar os primeiros passos em direção aos leitores. 
Para meu contentamento, a Hélia disse dele: 

"Esta poesia é logocêntrica - a palavra é o centro de onde se parte e onde se volta, sobre o qual se medita, cuja luz esclarece tudo o mais e que ainda nos convida a uma espécie de curiosidade científica sobre a linguagem, quase experimentação: (Há um conhecimento do ofício, uma competência técnica quanto baste)."

Quem o quiser adquirir pode contactar-me por e-mail para 

liciniaquiterio@sapo.pt 

8.11.12

OBLÍQUO

O sol oblíquo nas tábuas, digo baixinho. Demoro-me na obliquidade da linha de sol, no seu tempo angular, na sua origem celeste, no seu efeito de régua sobre as tábuas. Enquanto digo e penso, o ângulo altera-se, aumenta ou diminui, de um lado ou de outro das tábuas, e eu permaneço, relativamente indiferente ao avanço do degrau de sombra a lamber-me os pés, na absoluta indiferença das tábuas ao seu toque, agora a apagar-se, a apagar-me as palavras sobre a efemeridade das linhas de sombra. Baixinho disse - o sol oblíquo nas tábuas. Assim sempre. 


Foto de escultura de Cargaleiro

Licínia Quitério

30.10.12

VI


Vi não sei bem se vi com os meus olhos de ver se com as mãos ou com a matéria incandescente do desejo na brevidade das mãos vi ou não vi no átrio a porta entreaberta o tilintar da loiça a sirene ao longe o aroma da alfazema vi agora posso afirmar agora que esse roçar de pele esse repique de sinos me acordou sim juro solenemente vi a tua cabeça esquecida do corpo do átrio dos ruídos dos cheiros da 
obscenidade da morte a tua cabeça a luz da tua cabeça a voz da tua cabeça tão igual tão antiga a voz dizia eu na fresta da porta no torpor da tarde pedindo ou dando é igual a sílaba única do meu nome as duas sílabas do sítio ainda inabalável redondo fogo e cinza janela e porta e a tua cabeça ou melhor a voz da tua bela cabeça dizendo

Licínia Quitério

NOVO LIVRO



E assim vai aparecer mais um livro de poemas. É o meu quarto livro, de geração tardia, como os outros, mas escrito com a vontade que a vida quis que em mim se renovasse, com a dedicação maior que ponho nas palavras, com tudo o que afinal sei e sou. No dia do lançamento, farei a festa como gosto, com os amigos de ontem e de hoje, do perto e do longe, com a voz que tenho, com a comoção que nunca falha. Não é nada importante. É só um livro. É só mais um bocadinho de mim.

A apresentação, que será feita pela HÉLIA CORREIA, decorrerá em Mafra, no salão dos Bombeiros Voluntários, no dia 10 de Novembro, pelas 15 horas.

Lá vos espero para o abraço. Muito obrigada.

Licínia


23.10.12

UM CANSAÇO




Há um cansaço por dentro desta tarde. Uma falsa quietude de seivas adoecidas. Bichos por entre as folhas mortas, amontoadas. Uma vozearia rumorosa, de palavras decompostas, insignificantes. O rodado dos carros é um rugido de feras severamente castradas. A minha cabeça inclina-se sobre a luz das candeias que nunca acendi. Há pobres à minha porta que desdobram papéis e recitam orações de santos que nunca adorei. Espero ainda as respostas impossíveis às perguntas impossíveis com que nasci. Chama-me a tarde, apodrecida e escura, entre o asfalto e as canas bravas, as velhas estrelas e um novo planeta. Cansada tarde, inclinada sobre a minha cabeça, comovida pelas luzes das candeias que ainda brilham, que ainda brilham.


Licínia Quitério

17.10.12

A NOVA ESTAÇÃO


Escuta, é a primeira chuva da estação. 
A minha boca seca aflora o barro, cheiroso 
à ingenuidade dos presépios da infância 
com seus espelhos-lagos a anularem maldições.
Põe a tua mão sobre a minha. Sente o sangue 
por baixo da pele, as toupeiras por baixo da terra. 
Cegos são e escavam vida inteira suas veias
infindas, desejando a  luz, dela fugindo.
Tens o espanto nos olhos. Há um livro que gorjeia. 
Eu explico - os pássaros andam mudos e eu guardei 
as vozes nos versos brancos dos meus livros.
Depois da chuva, a tua mão longe da minha,
o meu sangue paralelo às toupeiras, o barro
a desfazer-se com a memória dos presépios,
a debandada dos pássaros mudos. Nos livros,
o desenho das pautas dos seus imensos cantos.
É a nova estação. Podes já não escutar.

Licínia Quitério

5.10.12

INFORMAÇÃO

No dia 10 de Novembro próximo, será a apresentação pública de "Os Sítios", o meu novo livro de poemas.
Em devido tempo, darei as necessárias informações. Por agora, limito-me a deixar aqui convosco a expressão do meu contentamento por, mais uma vez ainda, reunir em livro poemas com que vou construindo os dias, os desejos, acalmando as sombras, os sustos, encontrando as amizades ou amores, que uma mesma coisa são para quem, como eu, confunde o riso com a lágrima, ambos fáceis, ambos indispensáveis. 

Voltarei para o convite.

Abraços, meus Amigos.

Licínia Quitério

1.10.12

DEIXA-TE FICAR

Deixa-te ficar. Encosta o cansaço
ao vermelho da rosa 
esquecida ela também de ser botão. 
Pensa na história mil vezes contada 
e acrescentada e sempre a mesma 
e já outra, a história.
Podes até não falar. 
Passeia os olhos nas capas dos livros, 
para cá, para lá, numa procura 
sem tempo de achamento. 
Os relógios não dizem tic-tac, 
mas tu vais ouvi-lo e leve, muito leve, 
a tua mão na mesa num batuque do longe, 
das  terras quentes que te não viveram. 
Fica mais um pouco. 
No vermelho da rosa aflora o negro. 
No teu rosto um sorriso de lua, 
a memória da prata.
Espera o piar dos mochos,
o coaxar das rãs, o cio triunfal
da vida sobre a morte.
Agora vai. A história espera
que a inventes, a contes, a acrescentes.
Que nunca o dia chegue de a saberes.


Licínia Quitério 

14.9.12

UMA EXPLICAÇÃO

Amigos,

Por uns tempos, enquanto preparo a publicação de um novo livro de poemas, estarei mais ausente deste sítio. Poderão encontrar-me por vezes no outro.

Muito obrigada por todas as vossas atenções e até sempre.

Licínia

3.9.12

SETEMBRO


Alguém que nos morreu 
nos dias violentos de setembro
deixou em testamento
a garra do calor a vergar-nos 
as pernas na subida.
Na porta escancarada da manhã
podemos divisar sobejos de banquete
e os ossos da casa abandonada.
Despedem-se as aves viajeiras 
em concílios no reino das areias.
Obreiras cegas trabalham 
na desmontagem dos umbrais.
Chega até nós o eco de fogueiras
extintas pela fúria da maré.
Há o cansaço de luas grandes
nos ventres das mulheres.
Herdeiros somos de tantos mortos
que assim nos pesa a vida
na adição dos meses
na subtração dos dias.

Licínia Quitério

28.8.12

MEIO DIA


Nos teatros do meio dia acontecem as tragédias.
As sombras poisam imóveis na ambição da luz.
São a definição, a petrificação das formas.
Ao meio do dia morrem as estátuas.

Licínia Quitério

24.8.12

URGÊNCIA



Urgência é esta febre de romper 
as brumas matinais e divisar 
os sinais da viagem. 
Sei da finitude dos astros 
e do infinito vazio onde nadam os sonhos. 
Milhares de livros se abriram 
à minha passagem e outros me aguardam
num desvão da cidade.
Um rasgão no telhado há de surgir 
e os meus ombros vergarão 
à luz da grande mãe.

Escrevo com as letras que aprendi
e mais não posso fazer
do que esperar o cântico do silêncio.

Licínia Quitério

14.8.12

QUE CHOVA


Que chova. Abundantemente, chova. 

Que o mar receba as lágrimas do céu 
e lhes ensine o sal e a saudade. 
Que a chuva alumbre as dores 
dos penhascos e os livre da sede 
e os agrida e os comova e os lave.
Que chegue a noite e a chuva dance
nos faróis, no vento, nas grutas
onde dorme o pó e a escuridão.
Que chova sobre o tédio e a demência
e as mãos dos homens sejam concha
e reaprendam o saber das águas
vivas, livres, circulares, eternas.

Licínia Quitério

6.8.12

AGOSTO


Neste hemisfério, onde agosto 
se abre  
à devassa do sol, é que folheio o verão,

soletro a imensidão dos dias e recupero
o olhar magnífico dos homens do deserto.
As macieiras vergam-se ao poder dos sumos.
As fadas da luz soltam risadas e tomam 
nomes de crianças polvilhando as praias.
A impaciência das chamas só acalma 
nas memórias de paz jazentes nos aquários.
No mês da grande lua, um frémito perpassa
as folhagens da noite. Trémulos, os homens
avançam a derrubar as invisíveis grades.
Os seus braços sobem, ansiando pelas torres
onde possam ser corujas, fartos de serem ratos.

Licínia Quitério

30.7.12

ESTE LUGAR


Ah este lugar sofrido de penúrias
este corpo cansado de anestesias
e provérbios
este retângulo de sol e ousadias
breves como breves os ganhos
os acertos e os projetos
Um pé nas pedras negras outro
nas pedras brancas
disciplina disciplina
pequenas travessuras
insurrreições de pouco sangue
revoluções até de flor na boca
Um travo amargo de ciúme
palavras afiadas palavrões
de toureiro e fadista
Amores lendários tumulares reais 

de realezas e nobrezas
que o povaréu não ama 

nem aproveita a cama
Nebulosos impérios hão de vir
e a salvação oh a salvação
há de estar ali à mão 

de semear papoilas e não
colher o pão
Amarrado à cabeceira
deste continente
o lugar não sente
o cheiro da semente
da serpente
Venha depressa a rima
que lhe dê
o ensejo 
de gritar


Nunca mais a morte do desejo

Nunca mais

Licínia Quitério

23.7.12

OS CÃES


Silentes os cães da lua
na descida da falésia
no silvo dos canaviais
na norma antiga das marés
Mansos os cães da noite morna
esquecidos de feras e de carne
Cães como peixes
calados 
de olhos líquidos
abertos na escuridão
Recordam os cães do sol
as suas vozes rubras
as caudas vigorosas
os olhos limpos
enfrentando a solidez da terra
Isso foi antes da lama
da cinza
da compra da indiferença
Desceram a falésia
São os cães da noite
calados e frios
como peixes de vidro


Licínia Quitério

14.7.12

BOM SERIA, POEMA

Bom seria mergulhar em ti, poema, inaugurar-te as águas na nascente, dar-te a sombra do meu corpo e o mais reluzente dos meus cálices. Devolver-te os segredos e os medos, a infinita ternura dos amados, a imparável vertigem dos amantes. Ondear na curva dos teus versos, dançar nos compassos  inesperados das vozes que te habitam. Arrasar-te as fronteiras, ser correnteza e margem e o tecido antes da margem, para além da margem. Bom seria, poema, possuir-te como macho  e ser na mesma noite a tua fêmea. Cravar-te imprecações em cada sílaba e afagar-te como mãe de última cria. Confundir com o leite dos meus olhos o sal do teu caminho. Atormentar-te, abençoar-te, como coisa amada e imperfeita, eternamente inacabada e ausente, na escuridão das florestas em que  vives, em que vivo. Bom seria, poema, beber-te as águas e partir contigo em busca da outra fonte.


Licínia Quitério   

11.7.12

NOVOS TEMPOS


http://www.tertuliadeebooks.com/catalog/Categoria4


Através deste link poderão adquirir o meu livro "De Pé sobre o Silêncio". A edição em papel está esgotada. Os novos tempos permitem que, editado como ebook, possa ser posto à venda por um preço muito inferior. É o futuro? Não, é o presente. Obrigada pela vossa atenção.


Licínia Quitério

8.7.12

LIBERDADE


Senhora dos  inquietos dias

que atravessas velada
a solidão dos tímidos,
a febre dos audazes,
a sede das searas.
Por ti, Senhora, pisamos
as sombras, sopramos
as cinzas, relembramos
a fricção das pedras
e o brilho do lume.
Por tua mão, Senhora,
resistimos aos cercos,
saltamos as devesas,
passamos a vau
os grossos rios.
Nomear-te, Senhora,
é acender janelas
na pequenez das casas,
folhas novas nos lenhos,
melros no aloendro.
Não nos deixes, Senhora
dos precipícios, da lonjura,
da explicação dos verbos,
madre das utopias,
filha nossa, caminho,
pão e semente,
aurora dos pobres.
Fica connosco, agora e sempre,
Liberdade.


Licínia Quitério

1.7.12

AQUI CHEGÁMOS


Aqui chegámos. A história à tiracolo,

a debitar reinados e vitórias e o destino
de um povo nobre e pobre por vontade 
de deus, ordem do rei e trabalho de bruxas.
Sólidas só as catedrais e as fragas reluzentes,
a disputar alturas com o olhar das águias.
Tudo o mais é líquido por aqui. Ondulação.
Salgueiro, seara, açude, cana verde, areal.
O linho, da semente ao fio, a amora, a seda.
O choro, o cante, a ladainha, o suor, o vinho.
Líquida a espera, líquida a tormenta.
Líquido o trinar das cordas, líquido o mar
por onde espreita o sonho, o atrevimento,
a inquietação, o medo, a teimosia. 
Um dia partiremos, dizemos, com a voz 
que se faz água e escorre e vai. 


Licínia Quitério

23.6.12

HÁ NO MAR UM LUGAR



Há  no mar um lugar que me pertence 
desde os meus tempos de alga envolta 
em espuma, nas cavernas mais fundas 
da inocência. Lugar de estrelas de alva, 
de cabeleiras de mulheres, perdidas na 
contagem das areias, de perfis de homens
buscando a rocha mãe. De luminárias
no dia antes das noites, dos lobos, 
das mortes. De castelos de vidro
na inquietação das mãos, no não saber 
da aresta viva, do golpe, do sangue. 
O lugar onde dormem as roupas velhas, 
as dúvidas, a serenidade dos meus olhos 
a acalmar tormentas.


Licínia Quitério

16.6.12

AS CIDADES


Passo a passo, pedra a pedra, casa a casa.
Desde a gruta, desde o bicho, desde a carne.
Assim se dizem as coisas. Assim se fazem as casas.
Assim se fecham as portas. Assim nos doem os dias.
Ombro a ombro, cara a cara, beijo a beijo.
Assim se fez o amor. Já não se faz o amor.
Resta a pedra sobre a pedra e a porta sempre fechada.
Cresce a erva, estala a cal, e o silêncio da ferrugem
é o sangue contra o sono. São os óxidos do tempo,
são as lágrimas viúvas, nevoeiros à desfilada
na garupa das cidades. Quase mortas as cidades.


Licínia Quitério

10.6.12

O PÓ


Há um tempo de subir as ruas, as árvores, 
as torres. Tempo de asas,  de respiros e 
suspiros, de pérolas na nuca. De desordem, 
desassossego, desapego. De corrida sem 
espora nem freio, de amor e desamor na 
mesma cama, de fome sem mesa, de mesa 
sem fome, de calor sempre. Subimos e 
tomamos rédeas invisíveis de cavalos 
brancos, de cavalos negros, de potros 
nunca amansados. É um galope sobre 
terras e águas, caminhos nesse tempo 
iguais, aprendidos nos manuais da vida 
quando aportámos ao cais do corpo,
ainda luminoso, quente. Um dia vem o 
pó e o cansaço amarra-nos os pulsos 
do desejo. Não nos reconhecemos nos 
espelhos e as palavras que dizemos não 
têm eco nas esferas. O esmorecer do 
fogo é um requiem pelo amor envelhecido 
nas escarpas violadas em silêncio, no 
avesso dos ventosno separar das águas. 
  
Licínia Quitério

2.6.12

OS SÍTIOS

Terra e mar são sítios que dizemos.
Outros há sem nome e sem morada - desertos
de onde as ervas fugiram, onde caiu a solidão
dos pássaros, o sal explodiu e o gelo não deu flor.
Há os meus próprios sítios. Ficam na distância
entre o perto e o longe, entre a corda e a amurada,
a inquietação e o sono. A casa, a rua, o largo.
Nomeio-os e sou eles, estou dentro deles.
Sou maior do que eles quando é verão e transpiro
e um lago verde me acrescenta os olhos.
Sou o frio das pedras nos dias da ruína, quando
todos os sítios empalidecem e desabam.
No sítio das mulheres estremeço e teço e parto,
com o cheiro do leite e do sangue nas costuras
da saia. Minha é a cidade onde sonho quando
os sítios escorrem de memória em memória e eu
não sei o número, a chave, a senha para os deter.
Há um sítio que dizemos céu, como dizemos
alto ou azul, em vez de nunca, em vez de morte.
É no sítio dos vivos que pensamos e, por ventura
ou condição, em desespero, amamos.

Licínia Quitério

24.5.12

O HÍFEN


Sentada no degrau. O abuso do sangue nos quartos interiores. O potro sem deus nem dono, a compasso, sem compasso. Intenso e doce. Assim ela. Sumo de amoras bravas, trovoada de maio, lago de rosas, rocha mãe de areias. Desobediência, desmedida, desnorte. Arma, alvo e seta. Substantivo incomum, verbo em trânsito, conjunção inconsequente. O degrau e as mãos sobre a mesa. Cravos, café, vinho, vício, tudo. O potro verde sobre as águas, o relâmpago no copo, as mãos. O turbilhão, o balão da aurora, os minutos da febre, a pele do sofá, no sofá. O vidro, o verde, o verde. O véu da tarde, o silêncio e a pedra. O degrau, o potro, a vertigem. O hífen. A ausência do hífen -.


Licínia Quitério   

16.5.12

À FLOR DAS ÁGUAS


São os dias do cerco. A cidade

ajoelha. Os deuses preparam 

a combustão das matas.

Os estrangeiros recuperam

as palavras guardadas sob os catres 

e aprontam as vestes da partida. 

Sem resistir, a cidade adormece. 

Um jovem abeira-se do cais. 

Nas mãos fechadas, uma música 

de estrelas. Nada pode contra 

o silêncio das muralhas. Avança

e uma névoa cresce à flor das águas.


Licínia Quitério

9.5.12

PARTO


Parto para lugares 

onde nada mudou 

Vou na correnteza das palavras 

na transparência dos olhos de água 

no músculo do braço a soçobrar 

no sopro do segredo 

no fervilhar do lodo 

na constância do medo 

na antecipação da memória

na exaltação da tarde nas ruas apinhadas 

Dentro da manhã levo o lume e a cinza

de que a viagem se alimenta

Retorno à fonte à barca à ignorância

ao lugar sempre o mesmo

Ao poço 

à torre branca

ao  anjo de oiro


Licínia Quitério

4.5.12

ANTES




Mil vezes esta pedra, mil vezes este mar.  

Mil vezes aqui estive e mil vezes voltei. 

Saber de um tesouro que há de haver. 

Saber-lhe o brilho, o cheiro, a vastidão. 

E não saber. Uma janela entreaberta, 

um muro inacabado, um cabo por dobrar. 

No fio da inquietação, uma batida, 

um compasso de tempos muito antigos,

antes das grécias, dos dilúvios. Antes.


Licínia Quitério

28.4.12

OS FRUTOS


À chegada dos frutos percebem-se lâminas

de sol na fala trepidante das mulheres

Os homens afastam-se a calcorrear as ruas

e olham de soslaio o ventre tumefacto da terra

As crianças adejam nos corredores da infância

Adolescência é o nome desse tempo latejante

de maçãs verdes trincadas e abandonadas

no mármore à voracidade dos insetos

Quem vai beber na concha da memória

sabe como os frutos crescem rápidos 

nos caminhos  maternais da liberdade


Licínia Quitério

20.4.12

ESPERA UM POUCO


Espera um pouco eu sei

as águas estão frias 
e as vozes noturnas afligem 
as mãos de quem labuta
Os lobos choram porque
há homens a uivar
nas clareiras 
e um cheiro a peste
vem rondar as manadas
ondulantes submissas
Digo-te que esperes
Não te digo como
nem quando verás
soltar-se a corda
e começar a construção
Há de acender-se a madrugada
na escada do poema
Subirás do lodo
à margem do amor
Será a hora de amortalhar
o medo e a faca
o vidro e o veneno
Reinventar a cidade
é a tua tarefa
Não te esqueças de amarrar o barco


Licínia Quitério

12.4.12

ASSIM POUSAMOS





Assim pousamos o coração na mesa 
dos anos repetentes e perguntamos
porque bates se nunca mais cobriste  
de sol o chão do grande inverno

Repegamos a cor das velhas dores
num teatro de espantos e silêncios

A comédia que somos e vivemos
bem ao largo de nós na ilusão
de um invicto perpétuo coração

Licínia Quitério


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