25.7.11

QUANDO OS MUROS


Quando os muros desabam
e as cancelas apodrecem,
é o tempo da explosão das sementes,
as mais ousadas, as mais sofredoras,
as mais simples.
Tocam sinos a rebate nos torrões calcinados, 
o orvalho das madrugadas reaprende
o seu ofício de nascente
e o pólen dos cravos nomeia os ventos,
os insectos, as vozes dos homens.
É nesse tempo sem relógios
que o amor se faz baga e folha e haste
e aroma de glicínias e doçura de figos 
e o alarido das gralhas e o coaxar das rãs 
na fertilidade dos charcos.
Desabam os muros e as cancelas apodrecem
na inutilidade dos advérbios.
As sementes, as mais sábias, despertam.
Acontece outra vez.
Milagre, se lhe quisermos chamar.

Licínia Quitério

19.7.11

ENCOLHES OS OMBROS






Encolhes os ombros a afastar
os répteis da lembrança.
Os teus olhos vagueiam
pelas feridas das casas.
Tens medo de saber a chegada da água,
o cheiro a lodo nos remos,
os metais corroídos,
o desejo a afundar, a afundar.
Cada sombra um sobressalto,
uma gota de suor na palma da mão.
Porque guardas a moeda
se não acreditas no barqueiro?

Licínia Quitério


12.7.11

NAQUELA HORA


Naquela hora todas as portas
se abriram e o teu corpo ganhou
o tamanho das palavras
que não quiseste dizer.
Havia o cheiro a alecrim e incenso
das procissões nos caminhos serranos.
Ouviram-se sinos nos campanários
distantes de aldeias distantes
em mapas ainda mais distantes.
Veio o cipreste e afirmou
ser irmão doutro lugar ao norte.
Era uma árvore perdida a reclamar
asilo como acontece nas histórias.
Nas vidraças podia ler-se o desenho
branco das máscaras de Veneza.
Se não fosse inconcebível,
um barco subiria as escadas
e tu, ainda de pé, com um menino
ao colo, embarcarias, sorrindo,
murmurando um cante do país ao sul.
Noutra hora, todas as portas voltaram
a fechar-se. 

Licínia Quitério

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