28.11.08

FRAGILIDADE


Repetidamente falo de plantas verdes e de muitas águas.
Alongo os braços sobre os lagos e as gotas de regresso trazem o agudo desejo de subida.
O rumor imperceptível das avencas anuncia vertigens na humidade dos poços.
Nas manhãs sonolentas um vapor de lágrimas aflora a pele dos pântanos.
Falo dos rios para dizer nascer da terra e fazer-se mar.
Quando a chuva bate nas vidraças o húmus da noite acorda sob a casa. É quando afirmo a fragilidade da canícula.

Licínia Quitério

23.11.08

REVISITAÇÃO

UM DIA

Um dia, hei-de escrever, de descrever
o tempo em que não houve tempo
com palavras abstractas,
feitas de sílabas mortas,
que não querem dizer o que dizem
ou simplesmente nasceram
para não dizer seja o que for.

Um dia, talvez semeie enigmas nos poemas
que Édipo algum consiga decifrar
e fale de cidades que nunca existiram,
povoadas de gentes incolores e etéreas,
sugerindo ser e não ser não sei o quê.

Um dia, talvez deixe de repetir "um dia”
e diga seriamente “hoje era noite”
e recuse tudo o que é linear
e deixe de escrever coisas estúpidas
nascidas das feridas do meu mundo.

Por agora, vou dizer:
Um dia, quando eu for crescida, Mãe,
e a tua voz partir de vez do meu ouvido,
farei discursos exactos
que não sangram nem sorriem -
os poemas convenientes.


Licínia Quitério, em "Da Memória dos Sentidos"

Apeteceu-me revisitar palavras antigas que foram minhas. Um filho novo não me fará enjeitar o mais velho. Não seria justo.

18.11.08

VALEU A PENA


Hoje a minha medida é o mar. O mar imenso, de todas as cores, de todos os amores. Mar que me tingiu de azul o coração, que me pôs no olhar um vestido de seda, que me deitou nos braços folhagens de amadas árvores. Mar sem procelas nem abismos. Mar de poucas letras e de infinitas palavras. Mar de suavíssimas lágrimas e de sorrisos luminosos. Mar de mim e dos outros na longa navegação da jangada que abracei. Valeu a pena, MAR.

Não me ocorre doutra forma agradecer a onda de carinho que me envolveu, a propósito da estreia de um livro. Gente de tantos lugares e de tantos tempos veio comigo viver a festa maior que sei fazer: a da Poesia, em mar de Amizade. Grata, comovida, grata.

Licínia Quitério

8.11.08

CONVITE




Venho convidar-vos para a apresentação do meu livro de poemas intitulado "DE PÉ SOBRE O SILÊNCIO". Gostaria de ter o prazer da vossa presença na

CASA DA CULTURA D. PEDRO V, na Rua José Elias Garcia, em MAFRA,
pelas 15h 30m do dia 15 deste mês de Novembro.


Até lá, o meu abraço.



Licínia Quitério

3.11.08

FRASES AVULSAS


Em tons pastel a paisagem recolhe uma criança a entrar no sono.
Numa ruela em Málaga palavras de Kavafis sobre o ocre.
O avanço implacável do deserto apaga na tenda o odor do chá.
O piano de Sam que nunca soou em Casablanca enche a cidade.
A orquestra dos ventos não faz dançar os barcos. Assombra-os.

Já estive em muitos portos mas nunca a minha ilha recusei.

Licínia Quitério

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