28.10.08

Outras falas


"Não te contei, amor, dos sonhos com paisagens inacabadas, com velas vermelhas que das pedras negras soltam barcos, com desenhos verdes que nos lembram plantas de jardins terrestres? Não te disse da leveza que nos lava as sombras e da fragilidade das correntes em redor dos pulsos? Desculpa, amor, se nada te contei no tempo certo. Eu não sabia da inconsistência das construções. Só quando crescemos mais que a nossa dor podemos sentir o que nunca dissemos, caminhar ombro a ombro com os medos e murmurar: Tão belo era o que já posso ver."
(Fala da personagem principal de "Novos lamentos pela morte de Teseu" que será dita com voz macia e líquida, a escorrer pelo basalto, a caminho do lago onde apenas vivem peixes cegos.)


Licínia Quitério

17.10.08

FORAM OS CORPOS










Foram os corpos desenhos de caminhos
traçados no labor dos dias úteis
em vermelhas praias calorosas
em lívidas luas friorentas.
Aprumados cresceram entre penhascos e lonjuras
atentos sempre à inclinação das noites.
Com versos brancos na língua incendiados
acrescentaram pele a outra pele.
Depois veio o deserto e os corpos
aprenderam novas sedes
já não de águas correntes
mas de estrelas.
Do deserto ao dilúvio foi um palmo de vida
e então os corpos se fizeram casco
se fizeram vela e navegaram.
Não se perderam.
Eram eles o mapa da viagem.

Licínia Quitério


Música: Wim Mertens

NOTA: Vou estar ausente por um curto período. Voltarei com novo fôlego, espero. Entretanto, desejo-vos bons tempos e boas publicações. E deixo beijos.
Licínia

11.10.08

IRONIAS

Eu nunca escreveria sobre gatos.
Sobre o seu pelo macio e o seu mau feitio e a sua proverbial independência.
Há gatos que passeiam pelas vagas inspirações dos poemas e pelos inesperados desacordes dos teclados.
Muito se fala do sorriso esfumado do gato de Chester e muito se ignora a aflição de Alice.
Há os gatos elegantes da infância e os gatos rechonchudos da velhice.
Há famosos pintores de gatos e gatos que ninguém sabe como entraram na tela.
Há gente que perde tempo a falar de gatos, dos seus gatos, e das pobres pessoas que nunca tiveram um gato.
Há gatos que se instalam nas páginas de um texto e esfarrapam as melhores intenções do seu autor determinado a não falar de gatos.



Licínia Quitério

6.10.08

QUAL DE NÓS




Que terras procurei e não achei?
Quem sabe é o timoneiro.
Porque morria o sol quando o barco virou?
A tarde era tão fria.
Por que mares naveguei antes de naufragar?
Por todos onde correm os cavalos do vento.
Quem me salvou da escuridão dos fundos?
Um pescador que na noite cantava.
Qual de nós se perdeu e não voltou?
O eco te responde.
Qual de nós?
Qual de nós?

Licínia Quitério

1.10.08

TEMPO











A Terra gira no sentido inverso

ao dos ponteiros dos relógios.

Foi assim que aprendi na Primavera.
Escrevia-se Terra com maiúscula.
De vida, com minúscula,
só me falaram já se dizia Verão.
Os relógios, coitados, de tantas rotações
e translações, enlouqueceram.
E a Vida gira e continua a ser medida
nos Outonos repetentes da paixão.
E a Terra gira e no Inverno
já se vislumbra o eixo. E há-de chegar
a hora de os relógios se acertarem
pelo incerto bater do coração.


Licínia Quitério

Música: Edith Piaf - Les Trois Cloches

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