30.10.06

DOS NOMES


Foto de L.Q.

Deram-te um nome.

Um homem tem de ter um nome:
João ou Pedro ou Manuel.

À pedra damos nome de pedra
que o é antes da pedra
e a si se basta.
Às flores chamamos flores,
o nome próprio que lhes dá a cor.

Um homem tem de ter um nome:
José ou Mário ou António,
para caminhar dentro dele.

Quando pegas na pedra,
pensas o nome pedra
e ele te diz da sua substância.
Quando cheiras a flor,
pensas o nome flor
e é ele que te inunda.

Quando olhas um homem,
Afonso ou Jorge ou Joaquim,
vês o seu nome,
a sua marca de água,
o oceano onde navegará
até ao fim do medo.


Licínia Quitério, "De Pé sobre o Silêncio" 


"Quando o padre perguntou o nome que iriam dar ao neófito, o padrinho respondeu, sem pestanejar, um suor incómodo aflorando as palmas das mãos:
- Jesus.
- Jesus?
- Sim, Senhor Prior.
- Assim, sem mais nada?
- Jesus Veredas Bicho, de seu nome completo.

O padre resmungou, a ensaiar o fio de voz:

- Jesus Bicho. Não! Parece heresia. Deus nos defenda.
- Mas, Senhor Prior, o pai é Bicho, o avô assim era, quem sabe se o avô do avô, não se deve negar o nome que o sangue traz.
- Pois, pois. Ainda se fosse Francisco, como o de Assis, irmão de todos os bichos… Sim, isso fazia sentido. Mas porquê Jesus?
- Saiba o Senhor Prior que, nas dores com que o pariu, a mãe outro nome não gritou. Dizem as mulheres que à roda estavam que, assim encolhidito como é, custou tanto a nascer como se encorpado menino a este mundo chegasse. A minha comadre Maria Bicho, coitadita, naquelas agonias que cabem a quem faz o maior dos trabalhos do mundo, só chamava pelo nome do Salvador.
- E daí?
Interrompeu abrupto o prior. - Todas as mulheres gritam quando têm essa tarefa entre mãos. Fez um sub-riso ao emendar: - Entre pernas. E persignou-se. - Que o Senhor me perdoe a ousadia.
O padrinho sentia-se levemente agastado. Pigarreou, entrelaçou as mãos atrás das costas, à procura da firmeza que o ajudasse a cortar cerce o rol de considerações, e disse, peremptório:

- Ao padrinho cabe nomear o afilhado. E este, Senhor Prior, será de sua graça Jesus, que pela boca da mãe falou na hora de viver, Veredas como as que a família da mãe vem percorrendo e Bicho, como todos os Bichos que houve pelo lado do pai.

Foi brilhante e definitivo. Alguns dias depois, o recém-chegado ficou inscrito no rebanho com o nome do Pastor."

Licínia Quitério
(excerto de um conto)

24.10.06

DAS MEMÓRIAS


Vale a pena falar
das lágrimas em cacho
a engravidar os nossos rios.
Dos lugares perdidos
de manhã e nunca
nunca mais anoitecidos.
Do cheiro à terra fresca
dos campos que lavrámos.
Dos filhos embalados
nos braços persistentes
da memória.
Dos desamores maiores
com que os amores nos atam.
Dos rostos antes lisos
talhados pelos ventos
dos pontos cardeais.
Do claro-escuro
da sala onde vivemos
a única versão do filme paraíso.

Vale a pena falar
do que fomos e andámos
e sofremos.

Só devemos calar
o que sonhamos.

Sabes quem eu sou? Não te lembras de mim? Tirou os óculos. Com os dedos escondeu o bigode grisalho. Os olhos dela bailarinos a procurar algum sinal do passado. E ele de repente a rir, atirando a cabeça para trás, exageradamente. A medo: O D.! Claro, miúda. Demoraste. Há quantos anos? Não digas. Foi ontem. O abraço, ligeiro e depois apertado. Como me reconheceste? Estamos tão crescidos. Ele riu de novo. Pela voz, miúda. Quem tem uma voz como a tua? Ah, sim. Sentiu-se corar. Adolescente de novo. Hoje estou com pressa. Um seminário, estás a ver. Um dia destes almoçamos juntos, pode ser? Para lembrar tempos antigos. Ela disse: Talvez. Ele deu-lhe o número do telefone. Viu-o sair, virar-se para trás e acenar. Ficou especada. Deitou fora o papel com o número do contacto. A voz, só a voz não envelhecera. Ficou contente por saber onde se escondera a sua memória.

Licínia Quitério

18.10.06

DOS SEGREDOS


Brinquedos de mulheres, aconchegados,
sugerem sonolências de um avô
nos suaves desvelos de uma manta,
os risonhos quadradinhos de tricô.
Abertos e fechados, alternados,
coloridos ao gosto de quem os fabricou,
quantas vezes a ocultar o defeito
de a vida ser um quadrado imperfeito,
a preto e branco e a contra-gosto.

Só as mulheres conhecem o segredo
destas flores nascidas de um novelo
tamanho como o tempo de degredo
das esperas que cabem às mulheres.
A espera é seu sustento e desatino,
seu tormento e descanso, seu balanço
de nascenças, de chegadas, de partidas,
de presenças, de partilhas adiadas.

O homem, quando espera, é um ser dormente,
como folha ondulante à tona de água.
A mulher agarra os fios e os vai tecendo,
as flores criando, acrescentando,
em profusão multiplicando teias.

Mulheres serenas, de novas Grécias,
a contar os fios, esperando Ulisses,
narrador de aventuras e peripécias e tolices.
Velhas mulheres tisnadas de Macondo
que Gabriel Garcia fez tecer
mágicas mantas, infindáveis.
Mulheres bordando esperas,
em doces flores de lã, estilizadas.
Mulheres cristalizadas, sempre as mãos movendo,
esperando da vida o que não sobrou.

Mulheres, só elas sabendo
o que esconde o quadradinho de tricô.

Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

Há quanto tempo aquele segredo habitava as suas madrugadas, os seus crepúsculos, os seus retiros agridoces? Não sabia dizer. Tentava não lhe dar importância, arrumando-o na arca das velharias sem préstimo. Mas era inevitável sentir-se espiada, devassada, sempre que ficava a sós com os ossos do passado. Num fim de dia morno de Outono precoce, o segredo revelou-se, atrevido, impúdico, depondo-lhe no coração um pássaro ferido que pedia socorro. Percebeu o anúncio. Chegara o tempo da verdade. Despiu os véus, apanhou do chão uma folha seca, caminhou em direcção ao sol poente e murmurou, com a voz limpa das memórias: Amo-te.
A ave bateu asas e partiu. No céu ficou um desenho vago de velhas rendas.

Licínia Quitério

11.10.06

DO OUTONO



Veste um fato arroxeado
cor de súplica.
Talvez pela manhã
se pudesse dizer acastanhado.
Lavrado de ogivas
e de mãos em estrela.

Sobre a terra gretada
e as pedras ainda mornas,
verte promessas de frescura.
Segreda destinos às aves de viagem.
Conduz as mãos dos homens
no afago de telhados e janelas.
Ensina as conchas da ternura
aos amantes cansados das areias.

É um tempo amável,
para ser lido nas heras
irmãs dos velhos muros,
nos frutos caídos de muitas gulas,
no leque multicolor do sol poente.

Dão-lhe o nome de Outono.
Ele chama-me Inverno.
Como quem diz sossego
ou anúncio de sono.

É inevitável falar dele. Do Outono. Para nós, os que vivemos visitando as quatro assoalhadas da nossa casa anual.
Há quem o adore e se sinta acalmado dos excessos do Verão. É tempo bom para os contemplativos das subtis mudanças. Inspirador de poetas e músicos e pintores. Há quem o tema e pense nele como num fim de tempo.
Aqui, em nossa volta, a Natureza afadiga-se na mudança dos cenários. Sinto-lhe a respiração forte de quem tem muito para dizer. Não deve ser nada fácil preparar o arrumo dos móveis na velha e austera fortaleza do Inverno.

Licínia Quitério

6.10.06

DAS PALAVRAS (2)

Piet Mondrian


Se eu ao menos soubesse o que são as palavras,
de que espuma são feitas, o que escondem por dentro,
havia de comê-las, melhor, saboreá-las,
mastigá-las, sem medo de traição ou veneno.
Como quem morde um pastel, tomar-lhe o gosto.
Depois de deglutir, lamber os beiços, dizer:
Estava bom, o sal na conta, a fritura no ponto.

Se eu ao menos soubesse por que são as palavras,
havia de as trazer no bolso do casaco,
embrulhadas em plumas, não fosse magoar
uma sílaba tónica e a tornasse muda,
incapaz, coitadita, de se fazer ouvir,
sem se arrimar a outra bem aberta
como um tátárárí vibrante de corneta.

Se eu soubesse o que são, por que são as palavras,
tomaria a brandura do amor em tempo certo,
a quentura da flor que só pede o deserto,
a vibração contida da asa do condor,
e então, em riso, em soluço, em desatino,
daria à luz palavras, torrentes de palavras,
como quem mata a fome ainda que se mate.

LICÍNIA QUITÉRIO, Da Memória Dos Sentidos


"... Estás só, agora, biliões de palavras se transformaram na vida - uma só que soubesses, a única, a absoluta, a que te dissesse inteiro nos despojos de ti. A que atravessasse todas as camadas de sermos e as dissesse a todas no fim. A que reunisse a vida toda e não houvesse nenhum possível da vida por dizer. A que dissesse o espírito do nosso tempo e no-lo tornasse tão inteligível que nem afinal o entendêssemos, o víssemos, como se não vê a luz mas só o que ela ilumina. A que redimisse tudo o que enche um viver e nada deixasse de fora como inútil ou desperdício. A que reunisse em si um homem inteiro sem deixar mesmo de fora o animal que também tem de ir vivendo. A palavra final, a palavra total. A única. A absoluta. ..."

VERGÍLIO FERREIRA, PARA SEMPRE

1.10.06

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Ensaio de foto dedicada a esta amiga e a este amigo

Responder à chamada

de quem nos fala de água
e afogar os demónios
das estradas da noite.

Bonito é caminhar
sobre as memórias
dos pássaros de fogo
que é como quem diz
de mãos abertas e trementes.

Obrigar as tábuas do soalho
a devolver os cheiros
das ceras e das danças
e do suor libidinoso e casto
de antigas madrugadas.

Redescobrir a fonte dos amores
quase a desmoronar
com a falésia.

Dizer bom-dia.
Continuar em frente.
Um pé em terra firme
o outro na maresia.

Há quantos anos estais aí, portões, muros, caminhos arenosos que escondeis calhaus rolados? A resposta não vem. Porventura a pergunta não devera ser esta. Tento outra: Quantas gaivotas vos sobrevoaram a ensaiar os voos picados sobre cardumes que daqui se avistam? De novo o silêncio.
Desisto e continuo a jornada. Olho os meus pés doridos e indago: Há quanto tempo aqui vos trago? Responderam: Pela primeira vez hoje vieste.
Mentiram, mas ensinaram-me a continuar. Só assim poderei aprender a perguntar.

Licínia Quitério

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