28.12.06

ANO NOVO



O POETA BEBE A LUZ
E INCENDEIA AS PEDRAS
NO SEU PEITO
O ANO É SEMPRE NOVO


Para todos os que durante o ano que está a findar visitaram este blog, mesmo sem o comentarem, vai o meu veemente agradecimento. Tenho aqui posto as palavras que sei dizer. Muito para além das minhas expectativas, tenho encontrado eco em leitores generosos e sabedores que me incentivam a continuar. Bem hajam, Amigos!
Um Novo Ano de claridade e esperança para todos.

Licínia Quitério

18.12.06

O CIRCO

Círculo de Cor, de August Macke

Desta vez é que vou
encontrar o lugar
que possa partilhar
com a pomba e o leão,
o camelo e o cão,
a menina bonita
de doirado despida,
o cavalo a correr
e a menina a aprender.

Senhoras e Senhores,
público respeitável,
vamos todos viver,
numa noite notável,
o maior, o maior
espectáculo visto.

Chapéu de sol e estrelas,
muita cor, muita luz.
Os bancos são de pau,
a música não para
e nesta grande nau,
redonda como o sonho
de todas as infâncias,
o coração aquece
e nós temos os olhos
e os ouvidos atentos
a tudo o que acontece.

Aqui não há distâncias
entre nós e o palhaço
que tropeça, tropeça,
sem chegar a cair
e que chora em repuxo,
a fingir, a fingir.
E os miúdos a rir
e os graúdos a rir.

Desta vez é que vou.
Vou partir com o circo.
Vou tocar o trompete,
vou vender chiclete.
Pinto as unhas de verde,
calço as botas de cano
com que sempre sonhei,
ajudo a desdobrar
o tapete do mágico
com que vai ocultar
a hora de cortar
a mulher deslumbrante
em três partes distintas.
E o público a pensar:
se algo correr mal,
como é, coitadita,
quem a vai consertar?
E eu por dentro de tudo
a saber como é.

Desta vez é que foi.
Já tenho o meu lugar
neste mundo em viagem,
bem dentro da miragem
que só tem uma margem:
a do lado de lá,
onde a pomba e o leão,
o camelo e o cão,
conhecem a Mimi
a trepar pela corda
e a acenar com um lenço,
e o palhaço que chora,
e o menino que ri,
e a menina bonita
no cavalo a correr.

Fui com o circo de vez.
Quando me anunciar,
o homem do turbante
vai dizer como faço
um número importante:
“Se subir é difícil
descer é bem pior!”
E o rufo do tambor
a engrossar o tremor
nos assentos de pau,
nos remendos da nau
que amanhã partirá
p’lo mundo, onde haverá
sempre alguém a dizer:
(baixinho é bem de ver
não vá alguém ouvir)
Vou partir com o circo,
desta vez é que vou,
ninguém me irá deter.

É entrar, é entrar,
meus senhores, é entrar!
O maior, o maior
espectáculo visto
não tarda a começar!!


Num registo um pouco diferente do habitual, hoje convido-vos para uma ida ao circo. O maior espectáculo do mundo anda por aí. Se eu demorar um pouco mais, não se assustem. Talvez me tenham passado a chamar Mimi. Por uns tempos. Só por uns tempos. Entretanto, que a Magia vos acompanhe.

Licínia Quitério

12.12.06

RETIROS


Sentir
a doce primavera

no abandono da parede nua.

Saborear nos frutos

o segredo da lua.

Lavar as mãos no rio

e perceber na água

a cicatriz do frio.

No rosto

a palidez de um sonho

ainda por sonhar.

O veludo de mãos

a tactear o corpo

esquecido de acordar.

Um arrastar de passos

na rua que não há.


Tão longe a dor
no tempo de retiro.

Em vez do gelo o vinho,

em vez do ferro o copo,

em vez da briga a festa.

Na mesa posta
da embriaguez,

a ternura servida

e convidado o riso.

Silenciado o grito.

Tão longe a dor
.
Quem dera no infinito.


Havia dias em que não aguentava o peso daquele arremedo de vida cheia. Esperavam dele o que nunca alcançara. Só sonhara. Cercado. Era como se sentia. Diziam-lhe como és importante e achava-se uma minhoca. Pediam-lhe esmolas e era ele o mendigo. Batiam-lhe palmas e só queria afagos. Pedia amor para aprender a amar. Cansado de dizer ternura como quem diz eu queria. Tentava uma saída. Era quando o descobríamos, à beira de um vago abismo, embriagado pela leitura de um livro, a gola levantada contra o frio, retirado do ruído do mundo que lhe estoirava a pele.

Licínia Quitério

6.12.06

LABIRINTOS


foto de L.Q.
É a brancura da manhã deserta
dos rostos habitantes de outros
sóis.
O rumor leve das folhas outonais

pelas veredas do teu ouvido interno.
Escutas a história de Ariadne,
a outra, a descuidada, a sem temor,

a que se riu do Minotauro e o fio largou.


Não queres saber do fim.
Afastas a folhagem.

Basta-te o labirinto do silêncio.
Teseu não mais voltou.
Se morto ou matador, agora tanto faz.


Nunca entendeu a cidade. As ruas como serpentes, subindo e descendo colinas, num alvoroço de carros e de gentes. Becos, travessas, calçadas, em profusão. Largos, praças, pracetas. Sabia que lá no fundo se deitava o rio. Dele o cheiro de marés e marinheiros de travessia. Dele a neblina sonolenta a roçar as portadas, a assustar as sardinheiras. Quantas vezes se perdeu na traiçoeira malha de caminhos? Insistia. Retrocedia, aceitava o desafio de uma curva em cotovelo, seguida de outra e outra e mais outra. Dobrava as esquinas que para ser dobradas foram feitas. Por vezes, sentia cansaço e parava num miradouro. Aproveitava para ganhar pontos de referência: uma igreja, um obelisco, um jardim, um prédio assustadoramente alto. Não voltaria a perder-se. Mas a memória estava gasta de lembrar os seus mapas interiores. E voltava a perder-se. Desistiu de entender a cidade. Aprendeu a viver nela sem tentar decifrar-lhe os enigmas. Tranquilamente, percorria os seus labirintos, deixando o acaso escolher as direcções. Até que um dia se encontrou em frente a um portão entreaberto, ao fundo de uma ruela sem brilho. Ia jurar que nunca ali tinha passado. Sentiu um arrepio quando o transpôs. Olhou para trás e viu a cidade larga, limpa, sem serpentes nem neblinas. Mas longe, longe... E seguiu em frente.

Licínia Quitério

30.11.06

DO MAR


foto de L.Q

Não basta olhar o mar.

É preciso forçá-lo

a ser as nossas lágrimas.
Mergulhar nele os astros

há muito adormecidos

na franja do tapete.

Recuperar o sal

e semear a praia.

Esperar pelas algas

e entrançar os cabelos.

Beber no côncavo da onda

e afastar os peixes.

Não pronunciar escamas.

Antes pétalas.

Sempre dizer mergulho

e não naufrágio.

Somos velas em terra.

Porque não navegar?


Vagueava pelo doirado da praia, com as sandálias na mão, a baloiçar. Afagava maternalmente um cão que corria ao seu encontro. Baixava-se e apanhava conchas. Devolvia-as ao mar e a boca desenhava um sopro, ou um beijo. Acenava às gaivotas com braços brancos como lenços. Sempre sorria quando olhava o céu. Deixava um rasto leve nas areias, como se pena fosse. Não sei a cor dos olhos, dos cabelos. Podiam mesmo não ter cor, como se diz da água. Bailava em torno de uma pedra baça e nela acendia brilhos de fogueira. Pisava rendas de espuma e uma poalha de estrelas lhe salpicava a leveza da saia.
Há quanto tempo a não vejo. Vou perguntar ao mar se ma levou.

Licínia Quitério

24.11.06

DO DESENCANTO

Foto de L.Q.

Um homem dorme nas arestas do frio
os ossos apoiados na lembrança
de um verão abrasador.
Eis o sono do homem
que percorreu os mares e regressou.
Nos olhos o esplendor da verdura das ilhas.
As mãos em leque na explicação das aves.
Parava em Maio a ouvir
o eco dos trovões pelas esferas.
Sentou-se amarrotado
nos degraus cor de cinza da pobreza.
Era quando cantava
com a voz doente do remorso.
Cansou-se da viagem
e desistiu da água
e demandou o porto.
Chorou ao tactear o gume da cidade.
Ensurdeceu que a música era grito.
Emudeceu na espera do silêncio.
Guardou no bolso a aspereza do dia.
Adormeceu obedecendo à noite.
Não sabe se sonhava.
Não sabe se dormia.


Arredou a cortina e espreitou a rua. O dia tinha sol, daquele a que se costuma chamar radioso. Devia ser Domingo. Há muito que o calendário deixara de lhe interessar, mas percebeu que a padaria estava fechada e viu uma jovem que andava com todo o vagar, parando de vez em quando para tirar uma fotografia. Pelas sombras das casas projectadas no passeio, concluiu que ainda não era meio-dia. Há muito deixara de olhar para os relógios. Não eram eles, nem os calendários que marcavam o passo do tempo. Maquinalmente, acendeu um cigarro. Era o último do maço. Que chatice, pensou. Tomou banho. Olhou-se no espelho e, com surpresa, viu uns fiozinhos líquidos a correrem dos olhos e a esconderem-se nas barbas. Há muito que isso não lhe acontecia. Concluiu: Tenho de ter mais cuidado. Um homem sem a companhia de um cigarro pode ser apanhado pela tristeza.
Saiu apressado à procura de uma tabacaria.

Licínia Quitério

19.11.06

PARQUES


Foto de L.Q.

O tempo nos parques é íntimo, inadiável,

imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palavra da palmeira,
na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos,
dorme nas furnas, isola-se nos quiosques.
Oculta-se no torso muscular do ficus,
o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros,
do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques.
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem,
a agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
deixam um frémito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
dos chorões, na cúpula azul, o tempo perdura
nos parques; e a pequenina cutia surpreende
a imobilidade anterior desse tempo no mundo
porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
é o tempo nos parques.

VINICIUS DE MORAIS

Passeiam-se nos parques como gatos. Deslizando, com elegância e sem pressas. Apurando os sentidos, a reconhecer o território. Afagam o tronco de uma árvore, olham a copa e, se fosse da sua natureza, trepariam e ficariam muito serenos, deitados no garfo de dois ramos jovens. Esmagam nos dedos uma folha de lúcia-lima e cheiram-na, aspiram-na, com sensualidade disfarçada. Pontapeiam uma pinha caída no saibro do caminho, para depois, mais adiante, a apanharem e a arremessarem. Como um gato faz com um novelo. São solitários. Evitam cruzar-se com outros exploradores. Procuram tomar caminhos diversos. Debruçam-se nos lagos, molham as pontas dos dedos e não as enxugam. Às vezes passam-nas no rosto. Espiam os pássaros, detêm-se, para não os assustarem.
Os gatos, esses, aparecem de noite. É o seu tempo dos parques. É também o tempo de muitos outros bichos que viram os homens sem serem vistos. Dos mistérios dos parques só os gatos sabem. Nunca os revelarão. Os poetas sabem disso, mas continuarão a deslizar nos parques, imitando os gatos. Na esperança de um dia saberem ler o que eles trazem inscrito nas pupilas.

Licínia Quitério

14.11.06

DAS SOMBRAS


Foto de L.Q.

e a minha amiga disse

“é preciso que chova

abundantemente chova”
.
disse-o com o lápis afiado

a bailar na folha amarelada

do caderninho em que desenha
histórias
de chuvas
que só ela sabe
.
palavras de poeta
húmidas e ferventes

a colorir as flores
do sangue em nossas veias
.
a lavar as ruas
das sombras incoerentes.


Diz frases curtas, bonitas, sempre precedidas de leves silêncios. Traz consigo livros e cadernos e lápis de cor e amostras de lãs grossas de cores, diria, tropicais. Com os dedos finos e longos enrola e desenrola fios de missangas, enquanto fala das gaivotas, das pedras, das chuvas. Para, pensativa, entre dois golos de chá de camomila, para ver por dentro a acácia dos seus sonhos recorrentes. Meio envergonhada, pede-me que leia um poema que escreveu durante a última insónia. Escrito à mão, numa caligrafia de menina prendada. É uma Senhora Poetisa, mas ninguém a conhece. Um dia, hei-de levá-la ao cimo do meu monte de planetas e gritar o seu nome. Quando ela voltar a casa, poderá lê-lo nas pedras da calçada em frente à porta. Uns se espantarão ao ver desenhada uma acácia. Outros dirão que são apenas sombras incoerentes.


P.S. Dedico este post
a todos os poetas do meu País que nunca viram os seus trabalhos publicados. Na sombra das gavetas, há muitos e belos poemas à espera dos leitores que com eles possam voar. Quem sabe um dia...

Licínia Quitério

9.11.06

DAS RUÍNAS

foto cedida pela Tina e pervertida por L.Q.

Na vila velha, a casa velha,
ou as veias nas fendas onde correm

trepadeiras de campainhas azuis

que sempre voltam com as andorinhas,

ou os gatos invisíveis nos parapeitos,

a lamber feridas inventadas,

ou os restos teimosos da tinta verde

nas paredes da sala de jantar,

ou o frio respirar das lagartixas no beiral

do telhado azul de nuvens raras.

Lá dentro, uma tosse miúda, persistente
,
ou um ranger de portas empenadas

ou os talheres a tilintar na mesa,

a abafar suspiros censurados,

ou os gritos do medo pelo escuro

ou o piar do velho mocho

ou as correrias das crianças:

não me apanhas, não me apanhas…

Ali a casa ainda habitada

a alimentar ruínas.

Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"


"Por fim, depois da Revolução, creio, conseguiu pensões do Estado que lhe davam para viver. Mas os cães e os gatos, que tratava como filhos, levavam-lhe tudo. Viviam com Ela, na casa que foi envelhecendo, rachando, apodrecendo. Por dentro e por fora. Foi fechando salas, desligando luzes, pregando janelas. Não deixava ninguém entrar. Não permitia que se visse o que era fácil de adivinhar. Atendia as pessoas a uma janela, por último já só entreaberta.
Também Ela foi ficando velha, encurvando, encolhendo. "
................................

"Não, nunca aceitou a disciplina do Lar de Idosos. Era difícil de aturar, mal-educada, agreste para empregados e visitas. Detestava tudo e todos. Dizia-se presa. Teimava, iludia vigilâncias e conseguia o cigarro, o uísque. Queria voltar para a sua “barraca”, como, com requebros de doçura, chamava aos restos da casa que afinal havia de lhe sobreviver. Duram tanto, as casas, não acha? As pessoas, não. Depois, as casas ficam vazias. É uma pena. Antes que me esqueça. Reparou que a casa lhe ganhou o nome? Passou a ser “A Casa de Ela”. "

(excertos de um conto)


Licínia Quitério

4.11.06

COISAS SIMPLES


Foto de L.Q.

Sobre a mesa de pinho
uma taça de vidro

Lá dentro
uma castanha brava
um tronco de alfazema
colhido no quintal
uma folha de choupo
que me bateu à porta
uma bolota que chegou do sul
uma falha de xisto
um pedaço de lava do vulcão
uma minúscula rosa do deserto
uma vieira um búzio
uma estrela do mar

Tudo tão simples

A natureza veio à minha casa
descansar


Há quanto tempo foi que, pela última vez, paraste e te sentaste e respiraste fundo e fechaste os olhos e folheaste o álbum das tuas imagens? Eu quero dizer aquele álbum a que colaste a etiqueta "Coisas Simples". Já não te lembras. É natural. Depois de tantos temporais, de tantas guerras, de tantos relatos em grito sobre essas guerras e esses temporais, como deves estar cansado. Tão cansado que tens medo de parar. Ou vergonha... Não tenhas. Acredita em mim. Parar é reconhecer a Vida. Pode acontecer que sintas um leve arrepio. Um estremecimento como se adivinha na relva pela tardinha. Não te assustes. É o sinal de que estás pronto para saborear de novo as pequeninas coisas que havias esquecido. Foram elas que fizeram de ti um homem grande. E continuam ao teu dispor. E gostam que as revejas, de olhos fechados. Com um sorriso doce. Assim mesmo. Assim...

Licínia Quitério

30.10.06

DOS NOMES


Foto de L.Q.

Deram-te um nome.

Um homem tem de ter um nome:
João ou Pedro ou Manuel.

À pedra damos nome de pedra
que o é antes da pedra
e a si se basta.
Às flores chamamos flores,
o nome próprio que lhes dá a cor.

Um homem tem de ter um nome:
José ou Mário ou António,
para caminhar dentro dele.

Quando pegas na pedra,
pensas o nome pedra
e ele te diz da sua substância.
Quando cheiras a flor,
pensas o nome flor
e é ele que te inunda.

Quando olhas um homem,
Afonso ou Jorge ou Joaquim,
vês o seu nome,
a sua marca de água,
o oceano onde navegará
até ao fim do medo.


Licínia Quitério, "De Pé sobre o Silêncio" 


"Quando o padre perguntou o nome que iriam dar ao neófito, o padrinho respondeu, sem pestanejar, um suor incómodo aflorando as palmas das mãos:
- Jesus.
- Jesus?
- Sim, Senhor Prior.
- Assim, sem mais nada?
- Jesus Veredas Bicho, de seu nome completo.

O padre resmungou, a ensaiar o fio de voz:

- Jesus Bicho. Não! Parece heresia. Deus nos defenda.
- Mas, Senhor Prior, o pai é Bicho, o avô assim era, quem sabe se o avô do avô, não se deve negar o nome que o sangue traz.
- Pois, pois. Ainda se fosse Francisco, como o de Assis, irmão de todos os bichos… Sim, isso fazia sentido. Mas porquê Jesus?
- Saiba o Senhor Prior que, nas dores com que o pariu, a mãe outro nome não gritou. Dizem as mulheres que à roda estavam que, assim encolhidito como é, custou tanto a nascer como se encorpado menino a este mundo chegasse. A minha comadre Maria Bicho, coitadita, naquelas agonias que cabem a quem faz o maior dos trabalhos do mundo, só chamava pelo nome do Salvador.
- E daí?
Interrompeu abrupto o prior. - Todas as mulheres gritam quando têm essa tarefa entre mãos. Fez um sub-riso ao emendar: - Entre pernas. E persignou-se. - Que o Senhor me perdoe a ousadia.
O padrinho sentia-se levemente agastado. Pigarreou, entrelaçou as mãos atrás das costas, à procura da firmeza que o ajudasse a cortar cerce o rol de considerações, e disse, peremptório:

- Ao padrinho cabe nomear o afilhado. E este, Senhor Prior, será de sua graça Jesus, que pela boca da mãe falou na hora de viver, Veredas como as que a família da mãe vem percorrendo e Bicho, como todos os Bichos que houve pelo lado do pai.

Foi brilhante e definitivo. Alguns dias depois, o recém-chegado ficou inscrito no rebanho com o nome do Pastor."

Licínia Quitério
(excerto de um conto)

24.10.06

DAS MEMÓRIAS


Vale a pena falar
das lágrimas em cacho
a engravidar os nossos rios.
Dos lugares perdidos
de manhã e nunca
nunca mais anoitecidos.
Do cheiro à terra fresca
dos campos que lavrámos.
Dos filhos embalados
nos braços persistentes
da memória.
Dos desamores maiores
com que os amores nos atam.
Dos rostos antes lisos
talhados pelos ventos
dos pontos cardeais.
Do claro-escuro
da sala onde vivemos
a única versão do filme paraíso.

Vale a pena falar
do que fomos e andámos
e sofremos.

Só devemos calar
o que sonhamos.

Sabes quem eu sou? Não te lembras de mim? Tirou os óculos. Com os dedos escondeu o bigode grisalho. Os olhos dela bailarinos a procurar algum sinal do passado. E ele de repente a rir, atirando a cabeça para trás, exageradamente. A medo: O D.! Claro, miúda. Demoraste. Há quantos anos? Não digas. Foi ontem. O abraço, ligeiro e depois apertado. Como me reconheceste? Estamos tão crescidos. Ele riu de novo. Pela voz, miúda. Quem tem uma voz como a tua? Ah, sim. Sentiu-se corar. Adolescente de novo. Hoje estou com pressa. Um seminário, estás a ver. Um dia destes almoçamos juntos, pode ser? Para lembrar tempos antigos. Ela disse: Talvez. Ele deu-lhe o número do telefone. Viu-o sair, virar-se para trás e acenar. Ficou especada. Deitou fora o papel com o número do contacto. A voz, só a voz não envelhecera. Ficou contente por saber onde se escondera a sua memória.

Licínia Quitério

18.10.06

DOS SEGREDOS


Brinquedos de mulheres, aconchegados,
sugerem sonolências de um avô
nos suaves desvelos de uma manta,
os risonhos quadradinhos de tricô.
Abertos e fechados, alternados,
coloridos ao gosto de quem os fabricou,
quantas vezes a ocultar o defeito
de a vida ser um quadrado imperfeito,
a preto e branco e a contra-gosto.

Só as mulheres conhecem o segredo
destas flores nascidas de um novelo
tamanho como o tempo de degredo
das esperas que cabem às mulheres.
A espera é seu sustento e desatino,
seu tormento e descanso, seu balanço
de nascenças, de chegadas, de partidas,
de presenças, de partilhas adiadas.

O homem, quando espera, é um ser dormente,
como folha ondulante à tona de água.
A mulher agarra os fios e os vai tecendo,
as flores criando, acrescentando,
em profusão multiplicando teias.

Mulheres serenas, de novas Grécias,
a contar os fios, esperando Ulisses,
narrador de aventuras e peripécias e tolices.
Velhas mulheres tisnadas de Macondo
que Gabriel Garcia fez tecer
mágicas mantas, infindáveis.
Mulheres bordando esperas,
em doces flores de lã, estilizadas.
Mulheres cristalizadas, sempre as mãos movendo,
esperando da vida o que não sobrou.

Mulheres, só elas sabendo
o que esconde o quadradinho de tricô.

Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

Há quanto tempo aquele segredo habitava as suas madrugadas, os seus crepúsculos, os seus retiros agridoces? Não sabia dizer. Tentava não lhe dar importância, arrumando-o na arca das velharias sem préstimo. Mas era inevitável sentir-se espiada, devassada, sempre que ficava a sós com os ossos do passado. Num fim de dia morno de Outono precoce, o segredo revelou-se, atrevido, impúdico, depondo-lhe no coração um pássaro ferido que pedia socorro. Percebeu o anúncio. Chegara o tempo da verdade. Despiu os véus, apanhou do chão uma folha seca, caminhou em direcção ao sol poente e murmurou, com a voz limpa das memórias: Amo-te.
A ave bateu asas e partiu. No céu ficou um desenho vago de velhas rendas.

Licínia Quitério

11.10.06

DO OUTONO



Veste um fato arroxeado
cor de súplica.
Talvez pela manhã
se pudesse dizer acastanhado.
Lavrado de ogivas
e de mãos em estrela.

Sobre a terra gretada
e as pedras ainda mornas,
verte promessas de frescura.
Segreda destinos às aves de viagem.
Conduz as mãos dos homens
no afago de telhados e janelas.
Ensina as conchas da ternura
aos amantes cansados das areias.

É um tempo amável,
para ser lido nas heras
irmãs dos velhos muros,
nos frutos caídos de muitas gulas,
no leque multicolor do sol poente.

Dão-lhe o nome de Outono.
Ele chama-me Inverno.
Como quem diz sossego
ou anúncio de sono.

É inevitável falar dele. Do Outono. Para nós, os que vivemos visitando as quatro assoalhadas da nossa casa anual.
Há quem o adore e se sinta acalmado dos excessos do Verão. É tempo bom para os contemplativos das subtis mudanças. Inspirador de poetas e músicos e pintores. Há quem o tema e pense nele como num fim de tempo.
Aqui, em nossa volta, a Natureza afadiga-se na mudança dos cenários. Sinto-lhe a respiração forte de quem tem muito para dizer. Não deve ser nada fácil preparar o arrumo dos móveis na velha e austera fortaleza do Inverno.

Licínia Quitério

6.10.06

DAS PALAVRAS (2)

Piet Mondrian


Se eu ao menos soubesse o que são as palavras,
de que espuma são feitas, o que escondem por dentro,
havia de comê-las, melhor, saboreá-las,
mastigá-las, sem medo de traição ou veneno.
Como quem morde um pastel, tomar-lhe o gosto.
Depois de deglutir, lamber os beiços, dizer:
Estava bom, o sal na conta, a fritura no ponto.

Se eu ao menos soubesse por que são as palavras,
havia de as trazer no bolso do casaco,
embrulhadas em plumas, não fosse magoar
uma sílaba tónica e a tornasse muda,
incapaz, coitadita, de se fazer ouvir,
sem se arrimar a outra bem aberta
como um tátárárí vibrante de corneta.

Se eu soubesse o que são, por que são as palavras,
tomaria a brandura do amor em tempo certo,
a quentura da flor que só pede o deserto,
a vibração contida da asa do condor,
e então, em riso, em soluço, em desatino,
daria à luz palavras, torrentes de palavras,
como quem mata a fome ainda que se mate.

LICÍNIA QUITÉRIO, Da Memória Dos Sentidos


"... Estás só, agora, biliões de palavras se transformaram na vida - uma só que soubesses, a única, a absoluta, a que te dissesse inteiro nos despojos de ti. A que atravessasse todas as camadas de sermos e as dissesse a todas no fim. A que reunisse a vida toda e não houvesse nenhum possível da vida por dizer. A que dissesse o espírito do nosso tempo e no-lo tornasse tão inteligível que nem afinal o entendêssemos, o víssemos, como se não vê a luz mas só o que ela ilumina. A que redimisse tudo o que enche um viver e nada deixasse de fora como inútil ou desperdício. A que reunisse em si um homem inteiro sem deixar mesmo de fora o animal que também tem de ir vivendo. A palavra final, a palavra total. A única. A absoluta. ..."

VERGÍLIO FERREIRA, PARA SEMPRE

1.10.06

CONTINUAR



Ensaio de foto dedicada a esta amiga e a este amigo

Responder à chamada

de quem nos fala de água
e afogar os demónios
das estradas da noite.

Bonito é caminhar
sobre as memórias
dos pássaros de fogo
que é como quem diz
de mãos abertas e trementes.

Obrigar as tábuas do soalho
a devolver os cheiros
das ceras e das danças
e do suor libidinoso e casto
de antigas madrugadas.

Redescobrir a fonte dos amores
quase a desmoronar
com a falésia.

Dizer bom-dia.
Continuar em frente.
Um pé em terra firme
o outro na maresia.

Há quantos anos estais aí, portões, muros, caminhos arenosos que escondeis calhaus rolados? A resposta não vem. Porventura a pergunta não devera ser esta. Tento outra: Quantas gaivotas vos sobrevoaram a ensaiar os voos picados sobre cardumes que daqui se avistam? De novo o silêncio.
Desisto e continuo a jornada. Olho os meus pés doridos e indago: Há quanto tempo aqui vos trago? Responderam: Pela primeira vez hoje vieste.
Mentiram, mas ensinaram-me a continuar. Só assim poderei aprender a perguntar.

Licínia Quitério

19.9.06

VIRÁS

Fragonard

Virás solene e belo

com o brilho da prata
e o verde dos limos
e a maciez das pétalas
e a ternura inconfessada
dos guerreiros.

Sorrirás pelos trilhos da alva
desviando as facas
domando as fúrias
do meu descaminho.

Perguntarás:
Mulher quem és agora?
Lavarei as mãos
nos meus ribeiros
para nelas beber a tua voz.

Não te responderei
antes do anoitecer
quando o meu corpo
se esquecer do cardo
e se fizer o lírio.

Aguardarás sereno
como uma prega
na espádua do tempo.

A hora chegará
de retalhar as cordas
e atravessar o espelho
e apagar o lume
na casa da montanha.

Só então te direi:
Sou a pedra de canto
do sítio que habitavas.
Meu nome um monossílabo
como tu como eu
como chão como céu.

Licínia Quitério


Vou fazer uma pausa. Espero regressar brevemente. Este convívio é precioso demais para desistir. Que a Poesia, como eu a sinto, vos acompanhe.

Licínia

15.9.06

DA POESIA

Auguste Rodin - A Catedral

Se o poema demora,
espera o progresso dos ramos,
o choro oculto
na voz quente dos homens,
o anúncio do verão
na curva da cintura das mulheres.

Repousa as mãos na mesa
até que se desdobre
o algodão bordado
e se apresente o pão.
Dorme.
O corpo sobre a manta
da névoa litoral.

Acorda, com a calma
de um dia sem defeito.
Acolhe a ternura nas mãos,
o beija-flor no peito,
a música na pele.

Chegará o poema
a inundar a folha de papel,
a gravar nas sementes
a quentura do sol,
a desenhar perfis
de estátuas gregas
no céu do laranjal.


Licínia Quitério


"... Para seu equilíbrio, o Homem necessita tanto de instrumento como de símbolo, tanto de funcionalidade como de poesia, tanto de engenharia como de transcendência.
O excesso de um destes lados da balança produz doença. O excesso de instrumento produz a angústia de um grande vazio interior. O excesso de símbolo pode levar ao delírio sem meta nem objectivo.
A nossa sociedade prima pelo excesso de função. Pela falta de voo. Pela incapacidade para dialogar com as grandes e misteriosas forças do Universo e da alma humana.
Mas em todos os momentos da História apareceram os artistas e os poetas com as suas oficinas de pedras e de cores, de palavras e sonhos, a tentar levar o nosso olhar mais acima e mais ao fundo.
Estes artistas e poetas são homens e mulheres inquietos. Gente que se interroga sobre as suas angústias, que fala com a macieira e com a corrente do rio, que constrói catedrais e que se alimenta de música. ..."

JOSÉ FANHA

10.9.06

DO VAZIO

Foto antiga


Vazios os lugares
e as mãos abertas
a tactear os rostos
como paredes nuas.
Pálidas as vozes
e nos ouvidos
só apelos de mar
na vaza da maré.
Quando por fim a tarde
aceita a rendição
as mulheres amam
os lugares vazios
e deitam-nos no colo
e embalam-nos
com as vozes sobrantes
do cansaço.
Mesmo os lugares vazios

sonham com a enchente
na cava desse abraço.


Por instantes, a mulher desafiou o vão do arco e casou o corpo com o aprumo da coluna. Ergueu o braço e, com a mão em pala, ajudou o olhar na busca do rio. Talvez tenha avistado as caravelas por detrás das casas. Voltou-se a sorrir e convidou o homem: Vamos continuar as descobertas? Foram. O lugar permaneceu. Sem o sorriso de inventar navegações. Vazio.

Licínia Quitério

5.9.06

DAS MÃES

Postal antigo

Afagam os cabelos dos filhos
com dedos desarmados
e pensam fios de linho
no tear das lembranças
do enxoval.

Do linho nascem panos impolutos
que com dedos armados vão rasgar
até que a fios tornem.

Quando os filhos partirem
percorrerão os vales
subirão aos montes
com os fios do linho nos braços
a cantar.

Alguns ficarão presos em silvados.
Outros se perderão pelos caminhos. Mas
a paciência das mulheres é infinita
quando se trata de voltar ao tempo
de afagar as sedas

ou de rasgar o linho até ao fio do olhar.

Recordas-te, Mãe? Eu tinha os cabelos ruivos e encaracolados. Sentias muito orgulho na cabeleira da tua Menina. Dizias, quando eu corria ao Sol do meio-dia, que a minha cabeça parecia envolta em labaredas. E, ao dizê-lo, os teus olhos verdes eram lagos de Verão.
Depois, o meu cabelo envergonhou-se e escureceu. Acalmou as chamas. Mas ainda hoje, se está feliz, ganha reflexos rápidos de cobre líquido.
Agora estás a dizer-me que um dia os meus cabelos serão brancos, como os teus. Vou gostar. Já que não tenho olhos de mar, terei um diadema de espuma branca, como as ondas.
Recordas-te, Mãe? Quando eu aninhava a cabeça no teu colo, os meus cabelos corriam em busca da seda das tuas mãos. Tudo ficava tão lindo, Mãe. Recordas-te?

Licínia Quitério

31.8.06

DA SAUDADE



Salvador Dali - Rosa Meditativa

Ainda é cedo, sabes?
As pedras são maiores que as nossas mãos.
No ar pesa a espessura da tristeza.
As uvas estão verdes.
Não é tempo do vinho.
O grão já é farinha mas
o fermento dorme.
Não é tempo do pão.
Pequenos os seios das mulheres.
Não é tempo do leite.
As abelhas zumbem mas
a flor do rosmaninho é só botão.
Não é tempo do mel.
Amargos os lábios dos homens.
Não é tempo do beijo.

Ainda é cedo, sabes?
Esperemos de mãos dadas
sentados no caixote dos brinquedos
bebendo os versos que havemos de escrever.

Verás que amadurece o tempo da saudade.



Vamos a um dicionário e encontramos a definição da palavra saudade: lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou possuir; pesar pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia.
Sabemos que é um substantivo muito comum, do género feminino (tinha de ser?), singular em número. A partir deste enquadramento gramatical, podemos dizer:

"Prazer em conhecer-te, saudade. Vou fazer-te sujeito da oração: A saudade é transparente. Ou objecto: Eu sinto saudade do mês de Abril. Adjectivar-te: Saudade louca. Quantificar-te: Tanta saudade. Tecer considerações a teu respeito: A saudade não mata. A saudade seca. Dar-te ordens: Vai-te embora, saudade."

Um desafio:
Saudade é...
Quem quer arriscar um sinónimo? Claro que não virá em dicionários. Tem de vir de dentro, do coração.
Fico à espera, na volta do correio.

Licínia Quitério

26.8.06

DA NOITE






Vincent Van Gogh - Noite Estrelada


NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gin, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste Verão.

Era, no gira-discos, o "Martírio
de São Sebastião", de Débussy...
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a suspeita de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, também, um choro de criança...

DAVID MOURÃO-FERREIRA


É de noite e pelas paredes da casa escorrem sombras, a iludir as formas, a engordar volumes.
Ela é Alice e olha o gato enroscado no colo.

As flores na jarra secaram, mas a lembrança do orvalho dá à noite um cheiro líquido. Os livros dormem e alimentam a avidez das traças.
De longe, chega o lamento uivante de alguém que se perdeu e não voltou a casa.

É de noite que chora. Não grita, não soluça. Só lágrimas a lavar a máscara do dia.
De noite escreve. Sem endereço, que o mensageiro é a própria noite, sabedora de destinos por cumprir.


Licínia Quitério

25.8.06

DESAFIOS

Egon Schiele - Mulher Sentada


O Herético teve a gentileza de me nomear, no Jogo de Etiquetas que anda a passar entre bloguistas. Correndo o risco de não fazer a escolha mais correcta, porque apenas posso etiquetar seis Amigos, aqui declaro:

Alfazema Azul - O Preservar da Memória
Amar Palavras - A Poesia à Flor da Pele
Diafragma - O Bom Senso e o Bom Gosto
Dovoar - A Poesia em Estado Adulto
Era uma vez um Girassol - O Feminino
Papel de Fantasia - O Saudável Humor

Escuso-me a por etiquetas em mim própria. Deixo a tarefa para quem me conhece pelas palavras que escrevo.

Que este desafio seja mais um sinal de que as cumplicidades e as partilhas são possíveis neste nosso território "blogal" que também é, em grande medida, um local de recreio do espírito.

Licínia Quitério

20.8.06

DA GUERRA


Delacroix - Entrada dos Cruzados em Constantinopla

Chegam notícias da guerra.

Disseram-me que as guerras
visitam as cidades.
Tenho medo.
A minha cidade é antiga.
As ruas têm pedras soltas
em que os velhos tropeçam.
Na torre da igreja maior
faltou o azeite.
As corujas partiram.
Os jardins estão pobres
(a chuva tem sido salgada).
Mas na cidade eu habito
e nela acolho os irmãos
e os filhos deles.
Na pequena praça
há o banco verde
com uma criança ao colo.
É uma cidade triste,
mas antes de o ser
já era a minha cidade.

Chegam notícias.
Penso fechar as portas da cidade
e convocar as cores.
A cidade será
o ocre da planície,
o cinzento do céu.
Cidade sem cidade.

Dizem as notícias
que a guerra nada sabe do silêncio.


Nos teus olhos morava, desde há muito, a guerra. Talvez lá tivesse estado desde o princípio. Da guerra soubeste quase tanto como do amor. Quando ela, sem convite, se sentou à tua mesa, afastaste decididamente as formigas de asa que te disputavam a carne ressequida. Olhaste os pés e viste que te tinham calçado botas de soldado. A palavra inimigo passou a morar diante da tua porta. Pensaste em acompanhar a debandada das formigas de asa e procurar o deslumbre de uma lâmpada. Mas mandaram-te ficar. Vestiste as cores sujas dos guerreiros e defendeste o teu charco e a pele dos teus homens. Apuraste os cálculos e a pontaria. Conseguiste, disparando, dizer ao inimigo: "Não te matarei. Não me matarás.". O pacto foi selado na escuridão da noite tracejada pelo lume das balas .
Na tua guerra ninguém morria. Até ao dia em que, de ambos os lados, o pacto foi quebrado. Nada pudeste fazer. Voltaste, incólume. Mas nem o amor conseguiu tirar dos teus olhos a dor de teres visto a guerra.


Licínia Quitério

15.8.06

DA ALEGRIA


dizes-me alegria
e abro-te a janela do meu peito
onde se escondem ramos
de perpétuas roxas

vem colhê-las com os olhos

a aragem dum beijo
poderá magoar
o tule a seda o vidro
à beira de quebrar



Os nossos sentimentos podem ser tão frágeis quanto esta árvore que Klimt pintou, quanto uma folha seca entre as páginas de um livro. Que fazer da alegria ? Contemplá-la, segredar-lhe carícias, abrir a alma e dar-lhe guarida, se quiser. Quando for embora, poderemos abraçá-la com força. Uma boa lembrança é um animal vigoroso a desbravar caminhos.

Licínia Quitério

10.8.06

DAS PALAVRAS


Helena Vieira da Silva - Biblioteca

Batiam asas mas
sempre tropeçavam
em borboletas brancas.
As sílabas
na busca do palácio
das palavras.
Assim dizias tu
a desculpar
a visível mudez.
Quando a chuva lavava
a pobre fala dos homens
choravas letras
dentro dos dicionários.
As estantes gemiam
ao peso das ideias
afogadas.
As larvas entretinham-se
a devorar discursos.
Não desesperaste.
E o dia aconteceu
em que disseste
a única palavra permitida
a quem pela voz dos anjos se perdeu.



O menino disse: Vem.
A menina disse: Fico.
O menino disse: Porque ficas?
A menina disse: Sou assim.
O menino disse: Já viste o bosque?
A menina disse: Gosto de medronhos.
O menino disse: Eu trepo às árvores.
A menina disse: Tenho medo das cobras.
O menino disse: Gosto muito das tuas tranças.
A menina disse: O meu pai é poeta.
O menino disse: A minha avó é Maria Isabel.
A menina disse: Estou cansada de dizer tantas coisas.
O menino disse: Quando for crescido compro um avião enorme.
A menina disse: Deixas-me encher o avião de letras?
O menino disse: Deixo.
A menina disse. Vou.

Foram bonitos para sempre porque falaram juntos muitas palavras felizes.

Licínia Quitério

5.8.06

HISTÓRIAS


Conta-me uma história
com lobos maus, raposas a voar,
cegonhas sem vergonha,
palavras a rimar.

Conta.
Que se não contas, Mãe,
com que é que eu vou sonhar?






Foto de Joana Leitão, em Mafra Regional

São os novos contadores de histórias. Andarilhos que percorrem o país, a desenterrar tesouros para os salvarem do esquecimento e depois os partilharem com crianças, em escolas, bibliotecas. Recolhem histórias, às vezes dão-lhes novas roupagens e depois contam-nas, com vozes bem moduladas e gestos expressivos, em salinhas coloridas, e encantam miúdos e graúdos. São modestos acontecimentos que não merecem notícia da chamada imprensa de referência. É pena. Neste nosso mundo de desalentos, seria conveniente anunciar que há gente que se ocupa de coisas tão notáveis como o levantar da memória e a passagem do seu testemunho. Por caminhos destes, não se perderá a magia das vozes que dão asas aos sonhos suspensos dos olhos das crianças. Já agora, contem-me uma história!

Licínia Quitério





31.7.06

DAS ESPERAS

Rafal Olbinski - Espera

A buganvília secou.
Não esperou pelo solstício.
Duas vezes floria em cada ano.
Viu uma vez a neve
e decidiu que tinha visto tudo.
Desistiu.
Florir sempre também cansa.
Recusou beber a água fria
com sabor a terra e a animais
enrijeceu as hastes
despediu as folhas
e ao vento as entregou.
Quando vierem as abelhas
já não encontrarão a mesa posta.
Ficaram os espinhos e
as marcas na parede.
Não passou testemunho mas
a festa escarlate dos seus cachos
perdurará na memória das abelhas.

Levantou a louça da mesa, lavou-a e pô-la a escorrer. Ele foi sentar-se no sofá a ler o suplemento de economia do jornal diário. Esperou que ela viesse sentar-se ao lado dele. Anunciou: Vai começar a telenovela. Estranhou o toc-toc dos sapatos de salto alto pelo corredor. Tem o péssimo hábito de andar descalça. Vestida para sair. O saco de fim-de-semana ao ombro. Olhou-a mas não lhe encontrou os olhos. Só a voz: Não esperes por mim.

No bairro ganhou o nome de o Espera-a-Mulher. Na paragem de autocarro. O das dezoito e vinte e quatro. É ali que se encontram quando voltam dos empregos. Espera que saia o último passageiro. Ela às vezes distrai-se a pensar sei lá em quê e não repara que chegou ao destino. Amanhã voltará.

Aprendeu a lavar a loiça e pô-la a escorrer. Espera não voltar a ouvir o toc-toc no soalho do corredor. Já o alcatifou.

Licínia Quitério

20.7.06

JORGE DE SENA


NOUTROS LUGARES

Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é tanto que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância permitissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.


JORGE DE SENA


Nunca o Poema é longo se tão belo.

Licínia Quitério

Notas:
1. Num intervalo do descanso, passei para vos deixar esta prendinha.
2. Foi com pesar que soube do encerramento do blog do Jorge Esteves. Penso traduzir o sentimento de muitos de nós ao afirmar: "Amigo Jorge, sentimos muito a falta da inteligência e da generosidade do seu unicórnio azul. Que seja muito feliz no mundo real e, se puder, volte a esta esfera onde tão boa companhia nos fez. Um grande abraço."

Licínia

7.7.06

DA PREGUIÇA


Fiodor Vasiliev - Prado Húmido

A preguiça envolve a tinta das manhãs.
Uma coberta a invadir a cama o quarto a casa.
A luz é baça e morna.
A vontade um bicho invertebrado.
Por fora da preguiça tudo é vidro.
Preguiça não tem porta.
Só umbrais.
Ranhura em casca de ovo.
A preguiça vencer é um desafio -
transpor a abertura
ousar ir ao combate
sem temer arestas afiadas e
acreditar nos braços promissores do aloés
.

A sua divisa era "Tem tempo...". Nunca tinha pressa. Nunca alguém lhe ouviu dizer "Despacha-te!". Os relógios, para ele, eram máquinas maravilhosas que a sabedoria dos homens tinha construído desde o princípio do céu. Para medirem o tempo do universo. Projectava relógios de sol. Os que mais o seduziam. Não os concluia. "Obra pensada já existe", dizia. Preguiçoso, chamavam-lhe. Tomava isso como um cumprimento. Nunca perdeu tempo. Ganhou-o todo. Pensar era o seu ofício, a sua paixão. Recusava agir, a não ser para produzir perfeição e beleza que, afirmava, são uma e a mesma coisa. Dada a raridade de oportunidades de o conseguir, preguiçava muito. Dormia pouco. Havia tanto para aprender. Mesmo quando não lia, os olhos profundos moviam-se incessantemente a decifrar o grande livro da vida e das pessoas que tanto amava. Foi o ser humano mais preguiçoso que conheci. Acho que os antigos lhe teriam chamado um Sábio. Prefiro lembrá-lo como um Homem Bom. A preguiça sente a sua falta.

Licínia Quitério

Recado para os Amigos:

Até Agosto, a minha presença no blog vai ser apenas fortuita. Razão? Férias. Não terei oportunidade de vos comentar, nem de vos retribuir as sempre amáveis visitas e ainda mais generosas palavras. Tem sido uma convivência que superou as minhas melhores expectativas. Por aqui têm passado palavras lindas, inteligentes e afectuosas. Como sabem, as palavras são para mim objecto de adoração, por isso vos declaro como me sinto feliz por vos ter encontrado. Atrevo-me a dizer que já reflectimos, rimos e chorámos juntos. Tudo num mundo chamado virtual. Embora. Daí há gente. E gente bonita. Daqui estou eu, disposta a continuar convosco esta partilha gostosa, até onde as minhas capacidades o permitirem. Bem hajam.

Licínia

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