17.7.17

AMIGO


Os olhos presos no céu 
Fiel ao solo onde nasceu
Seguidor dos irmãos
Desenhador das ondas da planície
É nas horas de sombra
a bússola oferecida
à hesitação do caminheiro

Podeis pensar cipreste na Toscana
podeis

Eu o nomeio Amigo
esguio, forte, altivo
Um traço humano na paisagem

Licínia Quitério

9.7.17

OS VERBOS


Olhar
o céu da tarde

Pacificar
o turbilhão dos gestos

Ouvir
a música no búzio
a que chamamos coração


Convocar
o colo das mulheres
para os filhos dos homens
que partiram e ninguém sabe
quando voltarão

Inventar
um nome para a cidade
depois de Tróia, de Lidice, de Mossul,
e outras que Cassandra
não salvou

Cerrar
as portadas do dia

Preparar
a noite e os seus trabalhos
de segredo e olvido

Serão outros os verbos do amanhã
Todos no seu modo infinito
no seu tempo imperfeito

Havemos de encontrar
melhor conjugação

Licínia Quitério

2.7.17

SURPREENDE-ME



Faz-me uma surpresa
Gosto que me façam surpresas
Leio e escrevo, mas não encontro
histórias que me espantem
ou me façam chorar
ou me ponham a pensar
como acontecia no tempo
dos lobos maus
da fada-passarinho
da casa de chocolate
Para onde foram?
Conta-me
Ainda que mintas, conta-me
Eu vou acreditar
Ou então

Traz-me uma coisa que eu nunca tenha visto
Pode ser uma pedra, uma pequena pedra
igual a todas as que vi
Diz-me que a apanhaste
na estrada de Damasco

ou no deserto de Gobi 
Eu vou acreditar
Verdades não me tragas
Surpreende-me
mente-me
traz-me qualquer coisa que me faça rir
continuar a rir

adormecer


Licínia Quitério

20.6.17

A QUEIMA


As palavras também ardem.
Há palavras queimadas dentro de nós.
Ressuscitarão com as primeiras chuvas.
Assim saibamos o que fazer com elas.

Licínia Quitério

19.6.17

O ESPANTO



Todos sabíamos
Havia de vir o fogo
Com o poder de queimar
De matar
Todos sabíamos
Da avidez do fogo
Pela terra e seus pertences
Do seu desprezo pela água
Da sua força para enganar os ventos
E com eles bailar e subir
Da sua cupidez pelos corpos
Pelo sangue dos corpos
Do seu prazer da devora
Até ao osso até ao pó
Sabíamos e esperámos
Talvez o anjo nos salvasse
O anjo veio
E a sua espada era de fogo

E o nosso espanto é a cor da cinza

Licínia Quitério

10.6.17

ESCRITAS


Caligrafias,  de Ariana Andrade


no tempo do gelo ardente
na noite de fogo e lobo
depois de ter abatido
a corça mais inocente
com setas feitas de pedra
com arcos feitos de pau
com força feita de fome
 o homem se levantou
da esteira da solidão
e às paredes da gruta
 traços e voltas lançou
e com eles se encantou
e os traços multiplicou
e os traços deram as vozes
e as voltas deram as danças
e as danças eram de gente
e a gente era igual ao homem
que outro homem descobriu
nas pedras onde dançavam
as voltas que ali traçou
e com elas se amigou
 e ao outro dia chegou
uma mulher que passou
a mão nos traços e voltas 
e se aconchegou na esteira 
com o homem que inventou
do amor a carta primeira

Licínia Quitério

31.5.17

INTERLÚDIO


Um trevo de quatro folhas,
um raminho de hortelã,
uma plumagem de espargo,
florinhas da cor da neve.
Um raminho leve, leve,
tão pequenino a caber
na palma da minha mão.
Uma jarra transparente
com a água que alimente
do verde a fome e a sede.
Pequenos gestos os meus
a acarinhar, a compor,
desenhos que sei de cor.
Se tudo assim sempre fosse,
um tempo suave e doce
com o odor da ternura,
sem o rasto da amargura,
se tudo fosse e eu soubesse...


Licínia Quitério

29.5.17

A PENUMBRA


São os dias da penumbra.
A luz escorrente nas vidraças,
um fio de memória
a desenhar as asas
da pomba da infância,
e com a pomba a mãe,
o olhar da mãe
a segurar o traço,
e o candeeiro.
Sim, havia um candeeiro
que se quebrou
na escassez da casa.
Foi quando a rua entrou
na história, 
muito depois da pomba,
muito depois da mãe.
A rua de Hopper
da cidade silenciosa,
uma mulher à janela
com um vestido vermelho,
um carro parado,
as chaminés sem fumo.
No céu um candeeiro
que o pintor não viu.
A pomba o levou no bico
e o suspendeu.
Tudo é possível nos dias
da penumbra
se uma mulher vestida
de vermelho
pensa na infância
e a desenha.

Licínia Quitério

28.5.17

GRAÇA PIRES


A ruiva

Soltaram-se os pássaros vermelhos,
colados em meus cabelos.
Roçaram a sombra dos navios
e voaram, em círculos fechados,
rasando os areais.

Como um esboço de naufrágio
no rosto dos homens
que afagam sempre os filhos
como se fosse a última vez.
Como se, no coração das areias, os ventos
se enrolassem nas dunas em rituais de paixão.

Regressaram depois, os pássaros vermelhos.
E, lentamente, desalinharam os meus silêncios.

GRAÇA PIRES, em "Fui quase todas as mulheres de Modigliani", Poética Edições


foto da net

25.5.17

A FLORESTA


Naquele tempo, as árvores pediam os meus cabelos.

Eu era alta, da altura da grande mocidade que me vivia, e as árvores tinham ramos que se curvavam para mim, e isso acontecia em todas as estações, ou então, nesse tempo eu era o Verão e só sabia de flores e de frutos e mal tinha percebido a canção das seivas tronco acima, tronco abaixo.

Se não tivesse acontecido a loucura desse Verão, eu não seria hoje capaz de me sentar à sombra, olhar o alto, dizer ár-vo-re como quem embala um amor antigo, demorar-me na vibração das asas de uma borboleta. 

Por vezes penso no dia em que também serei árvore e tocarei sorrateira os cabelos da rapariga que caminha apressada, na sua aprendizagem de contar amores e perdições.

Enquanto espero, penso no nome a dar à floresta.


Licínia Quitério

19.5.17

O INCÊNDIO


À tardinha acontecem os incêndios
e os meus olhos ajoelham
porque a casa do céu se transmutou
em oiro.
Eu penso árvores alquímicas,
ecos de vozes altíssimas,
astros vizinhos do meu assustado coração.
Nada pode calar tanta beleza,
e no entanto há homens
que ao arrepio da luz
se fazem sombras
e são estéreis
são países mortos
são comandantes do medo.
Sabem que cegarão
quando olharem o céu
no incêndio da tarde.
Esperam a água da noite
que talvez não venha
talvez 

Licínia Quitério

13.5.17

O ESQUECIMENTO


Cedo ou tarde
em hora quente ou fria
encontrarás a porta 
aberta nos teus passos
peregrinos sem santo
nem sossego
Passos já não leves
não velozes
quem sabe apenas
a memória dos passos
em caminhos de sol
em veredas de lua
em becos de paixões
sinuosas e breves
Esqueceste tantos nomes
tantos rostos
mas aprendeste
a vastidão da praia
a cor do mar
as casas vazias
os laços rotos
uma música branca
uma franja de sombra
um piar de pássaro perdido
a procurar-te as mãos
É a hora de enfrentares o arco
e seres a flecha
de seres a pedra e o musgo
e o estalido da areia
ao peso do teu corpo
Sozinho vais
Ninguém pode fazer a tua estrada

Licínia Quitério

30.4.17

PALAVRAS



Chamam-se nomes, verbos, conjunções, conjugações
Aparecem em revoadas de qualquer estação
Erguem-se alucinadas das montanhas do sonho à linha de água
Tombam mansas das cascatas da memória sobre a poeira do chão
Espreitam atrevidas nas frestas do desejo
Acometem as veredas da voz e dão negrume ao soluço, rubor ao grito, alvura ao amor
Atropelam-se em delírio de sílabas, demoram-se em monossílabos numa quase mudez
Divertem-se em jogos de dar e receber, de trocar, de baralhar, letra por letra, de provocar, de comover, de endoidecer
A elas ofereci meu esforço e minha força
Com elas construí minha cidade velha
Por elas correm todos os meus rios
Palavras são tudo o que aprendi
Com elas danço e toco e me divirto
Por elas chegarei à casa grande do silêncio

Licínia Quitério

22.4.17

MEU A-BRIL



Na aragem da manhã um assobio
a soletrar a-bril no meu ouvido,
a deixar-se prender, a deixar-se embalar,
a relembrar a sua e minha história,
assim como quem conta -
Era uma vez um mês
que inaugurou os anos do deslumbre,
um caldo de alegria a transbordar
dos corações à rua.
Um mês que foi um ano inteiro,
pouco mais
que as serpentes voltaram do deserto
a entorpecer o a-bril da claridade.
O seu pulmão de sol adoeceu.
Mil vezes resistiu à sombra
e à calúnia.
Mil vezes alteou o som
da liberdade.
Envelheceu Abril e eu envelheci.
O assobio da manhã no meu ouvido 
ficará
até que eu deixe de pensar -
Minha flor maior,
meu a-bril, meu a-mor.

Licínia Quitério

11.4.17

OS LAGOS



Toda a gente sabe que os pássaros não nadam.
Voam e poisam nos altos ramos das altas árvores.
Os lagos estão ali para eles se mirarem e pensarem
(toda a gente sabe que os pássaros pensam) -
Olha um pássaro tão belo como eu.
Um dia dormirei abraçado àquele irmão.
É o que esperam todos os seres que voam
sobre os altos ramos das altas árvores
sem perderem de vista os grandes lagos
onde dormem os seus irmãos das águas.

Licínia Quitério

9.4.17

SALVAÇÃO



Salvar ou não salvar é uma questão
de despertar
com uma corda no braço
ou uma pedra na mão.
Tão próxima é a foz 
que o rio não avistamos
e da nascente não sabemos
senão o grito, o arrojo, o respirar.
Dos anjos salvadores
restaram penas,
alguns poemas que em estrela se tornaram.
Um outro, eu sei, escapou
à matança, à purificação.
Se de nome mudou
talvez se chame flor ou
água de beber
ou perfume em riso de mulher.
Talvez eu seja o rio
onde mergulhe para afogar
a urgência do poema
ou seja a corda e o salve
e lance a pedra para bem longe
e o poema seja eu que me salvei.
Licínia Quitério, em As Vozes de Isaque

6.4.17

ABRIL INACABADO



Houve um dia de espanto e de tremor.
Houve a notícia ainda inacabada
ainda frouxa.
Houve a alegria a desatar
os corredores do medo.
Houve um dia inteiro
meu amor nascido
meu  soldado de cravo
minha janela aberta
meu poema
meu caminho feito
de mão na mão
de coração a coração
entoada a canção
na voz mais alta
que aprendemos.
Foi assim o princípio
da tarefa mais nobre
de nomear a liberdade.
Que ficou desse dia
é o que te vou dizer
meu amor sem guarida
meu cravo sem soldado
minha janela entreaberta
meu tão curto caminho
de mão no coração
em voz baixa a canção.
Do dia do espanto e do tremor
ficou da liberdade
a antiga memória
a nova inquietação.
Desse dia sem noite
meu amor acabado
minha flor desmaiada
minha janela fechada
um poema ficou
na minha mão guardado
e lhe chamei Abril
imperfeito
inacabado.

Licínia Quitério

31.3.17

DOÇURA



Pedes-me notícias da doçura
e a tua mão treme na minha mão.
Sabes que quando digo golpe penso afago,
que quando escrevo mar dos afogados
aumenta o meu desejo de planície,
que a minha fúria é a saudade
dos caminhos verdes,
que as minhas sílabas de fogo
abrasam os que são de incêndio,
derretem os que são de gelo.
Tu sabes ler-me,
ó cavaleiro das tréguas,
ó guardador das chagas do poente,
mas eu esqueci
a ordenação das fontes
e as falas que me chegam
são numa língua que aprendi
e desprezei.
Dá-me um novo alfabeto
e eu te darei o mel
e tu serás meu livro de ternuras.

Licínia Quitério

29.3.17

ESCRITORES.ONLINE

Um outro Sítio onde me encontro:


http://escritores.online/escritor/licinia-quiterio/

28.3.17

ANDANÇAS



A corrida do fio da fonte, a brilhar, a devolver as cores do céu, das árvores, dos montes, como se dissesse arco-íris, silêncio murmurante.
O assobio do canavial, flauta de vento a ameaçar invernos no avesso das primaveras.
O soluçar dos campos pela ausência dos que partiram em direcção a um novo verão.
Os bocejos dos homens, sentados nos bancos do outono, a contarem as folhas caídas, os dias amortecidos.

Andanças, porque de danças se faz o nosso andar, de mundo em mundo, o que pisamos e o outro que sonhámos e, de tanto sonhar, nos fatigámos.

Licínia Quitério

27.3.17

NOTÍCIA BANAL




A faca corta, que bem corta a carne do vitelo, o corpo da mulher que não obedeceu, que não ajoelhou, que desejou partir, mas por ali ficou. 
Um filho carregava. 
Mas um filho de quem, deste homem ou do outro? 
Que lhe importa saber? 
A faca não pergunta o registo do sangue, a pureza do ovo. 
Deixa-se conduzir pelo pulso do homem, pela força da mão, pelo veneno da posse, a que o homem enforma, a que o homem deforma. 
A faca despedaça. 
Cortar é seu ofício. 
E porque bem cortou, o homem que a guiou tranquilo se sentiu. 
Senhor da vida e morte, consumado o abate, é um homem de pé. 
Não existe traição que a faca não degole, que a faca não apague. 
A matança apurou os sentidos do homem. 
Ele bem os ouviu, os gritos das mulheres, os rugidos dos homens, cruzados na arena. 
São aplausos calados, são ciúmes crescidos. 
Se eu tivesse uma faca, se não fosse este medo, ele não me escapava, ela não me ganhava. 
É a fúria do homem, é a força do bicho. 
Inocente é a faca que corta, que corta.


Licínia Quitério

19.2.17

LITANIA DA CHUVA


Era de noite e chovia

a água tamborilava
ao sabor da ventania

alguém na rua passava
e uma luz se acendia
onde uma mulher chorava
enquanto a chuva caía
porque o homem que passava
não parava não a queria
e enquanto o vento cantava
era a mulher que se ouvia
já fui dona já fui escrava
já fui noite já fui dia
fui soldo com que comprava
o linho com que tecia
o enredo que enredava
o lençol em que dormia
o passageiro que passava
e na minha casa entrava
e o meu corpo prendia

enquanto o vento soprava
enquanto a chuva caía

Licínia Quitério

12.2.17

A POESIA



Nasceu a poesia quando nasceu a vida.
Assistiu ao labor das bactérias,
ao tumulto das águas,
à transfiguração dos répteis.
No seu tempo ainda sem memória
a poesia viu a chegada
das árvores, a ousadia
dos peixes, a alegria da terra.
Quando veio o humano
que se escondeu do frio,
acendeu o lume e se sentou,
a poesia se entregou
à primeira pedra que foi livro
ainda sem palavras que o dissesse.
Eterna a poesia enquanto homem houver.
Enquanto luz.


Licínia Quitério, em "As Vozes de Isaque" (vários autores), da Poética Edições

11.2.17

O SONHO



Entre o sono e o sonho uma parede se levanta,
o tempo pára e todos os rostos são iguais.
É quando a indiferença nos submete e arrasta
e a dor do mundo é um vago negrume em nossa volta.
De repente uma flor, uma toada, um toque de luar,

e a parede a abrir, a ruir, a deixar ver o invisível,
tocar o intocável, mudar o imutável, maravilhar,
no teatro do sonho, numa noite de Verão.


Licínia Quitério

7.2.17

NO VENTO


No vento, escreve-se
o mar e o deserto,
com  suas ondas de fúria 
e de constância,

e também
o desalinho das ramadas
onde se inventam pássaros
com o seu canto a haver,

e também
o susto das paredes,
seus gemidos de pedra,
seu orgulho a ceder.

No vento, escreve-se 

o homem, a criança, a mulher,
seus temores de nascer,
de caminhar, de se perder.

No vento, só não se  escreve o amor,
esse sopro abraçado a outro sopro

liberto de qualquer caligrafia.

Licínia Quitério

28.1.17

AS ROSAS



Nos sonhos da manhã
outros sonhos navegam.

Em confusão, por vezes.
Por vezes, limpidez.
Leve o desejo de ficar
por mais um tempo
ou para sempre
na morna fantasia
entre a recta e a curva
entre o sol e a sombra.

Livres do nevoeiro
nos sonhos da manhã
chegam as rosas.


Licínia Quitério

22.1.17

INTERIORES


Os quartos interiores guardam memórias 
que só na escuridão têm abrigo.
Abrem-se estradas, corredores,
montanhas nunca.
Desfilam objectos em pedaços,
clarões de rostos,
íntimos sopros,
falas de palavras mudas.
Por vezes a nitidez de uma janela ao Sol,
uma flor gradeada,
uma renda de gelo.

Nos quartos interiores não sopra o vento,
mas folhas secas pairam, sem tombar.
Se o nosso olhar as segue,
bailam, rodopiam,
longe da nossa mão,
longe do corpo, a mão.

São muito antigos, os quartos interiores.
Antigos e fechados.
Só se abrem a quem guardou a chave
num raio de luz a oriente 
da casa
e dos seus quartos interiores.

Licínia Quitério

18.1.17

AZUL



Salvè, benevolência do Inverno, a prometer a purificação das horas.
Os homens sempre desconfiam da Natureza dadivosa.
Afincam-se a chorar a intempérie, a enxurrada, o tufão, a seca.
Mesmo o azul os perturba, se abundante.
Ao menos uma nuvem, sua metade branca, sua metade escura, a permitir presságio de mudança.
Só a imperfeição contenta os homens.

Perfeitos os deuses, esses sim, sem mácula, sem dor, distantes, muito distantes, da pobre humanidade.

Licínia Quitério 

16.1.17

REGRESSO


Pela janela da infância o mundo entrava.
O mundo, quero dizer, o canto estridente
do canário da vizinha Celeste,
com um carrapito preso por ganchos de tartaruga.
O bater sola, cadenciado, do Júlio sapateiro,
de beata apagada ao canto da boca.
O chiar do rodado do carro de bois,
pachorrentos como se usa dizer dos bois.
Os gritos, sobretudo os gritos dos meninos da rua
que brincavam e lutavam e se insultavam,
a enganar a fome da côdea que tardava.
E os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas,
Meu vadio, meu malandro,
Ah nha mãe na me bata qu’eu na torno a fazer.
O piar dos pardais, à boquinha da noite,
disputando um abrigo nos braços enormes
do velho plátano solitário.
Noite feita, os morcegos rasando a janela da infância.
Estranhos pássaros a chiarem como ratos.
E as corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares.
Chiiu, chiiu, chiiu…
E os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão,
pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.
Quando a janela da infância se fechava, começava o sono
e nele entrava o mundo, em nova ordem,
bizarro e encantatório.

Licínia Quitério, 1992

14.1.17

PAISAGEM


Anda a paisagem cheia
de vultos deslizantes
encharcados de Sol
nas suas horas altas.
Entre o escuro e o claro
não cabem indecisos.
A evidência da luz amaina
a indigência. 
Decoradas de sombras
as vontades avançam
em corpo de mulher
em corpo de homem.
Que a estrela não desista.
Que o brilho seja manto
a cobrir a penúria
a resgatar do gelo
quem para trás ficou
acorrentado
desamado
inerte. 

Licínia Quitério

12.1.17

AS PALAVRAS


São assim.
Crescem.
Desprendem-se.
Um estalido.
Um sussurro.
Um quase nada.
Se voltam
instalam-se
no coração da garganta.
Agitam-se e
assustam.
Sabemos e sentimos
o seu tecido
não tecido
a sua forma
informe.
Na hora certa elas virão
em cordas de violino
à nossa mão
e serão corpo
nosso
entrega
voo.
As palavras.

Licínia Quitério


8.1.17

PENAS


No fio dos dias há gargalhadas
das aves de arribação
que vão
que voltam
que vão.
A minha cabeça roda
a procurar montanhas.
Uma pena debaixo da almofada.
Uma pena no negro do café.
E eu perdida no veludo da noite.
Os anjos cantam
riem.
E eu perdida entre o sorriso e o soluço.
E eu a despertar
a adormecer.
O fio dos dias a compor o signo do infinito
igual a sempre
igual a nunca.
E eu perdida
desigual.

Licínia Quitério

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