6.8.16

A TORRENTE


Há um calor absurdo nas florestas.
Nem o silêncio,
nem a mão na testa,
nem as cores da distância,
nada pode parar a fogueira
a lavrar nos ramos
da nossa velha árvore.
Há palavras
capazes de abrandar
a tentação dos precipícios
quando o Verão descola e incendeia.
Não as dizemos.
O Verão há-de passar
e outro e outro
e as palavras
presas na garganta
do nosso grande rio,
na seiva da nossa velha árvore.
Palavras de água à espera da torrente.

Licínia Quitério

26.7.16

A SEDE

Esperas uma pequena brisa 
que afague a pedra crua desse banco. 
Já aprendeste o furacão e o silêncio depois dele, 
na imobilidade dos destroços. 
De mares e marés sabe o teu corpo 
depois do barco e do barqueiro 
e do sangue com que fizeste o óbolo. 
Sabes do grito do arame  
e o teu espanto lá ficou, preso na farpa. 
De tanto caminhares já esqueceste 
o tamanho dos pés, a inclinação dos dias. 
Sentiste o desejo de mulheres, 
mas as que viste tinham na pele 
a palidez dos mortos e de ti fugiram 
porque negro, porque noite, porque medo. 
Longe do mar, longe da terra prometida,
pouco mais tens do que o teu corpo
sem certidão nem idade, que as deixaste por aí,
entre dois pontos cardeais.
Por baixo desse corpo tens o banco
de pedra pálida como a pele das mulheres
que te rejeitam. Sentado esperas
não sabes se uma pequena brisa
se uma pequena faca com que cortes
a corda que não puxa o balde que 
não traz a água que não mata a sede.

Licínia Quitério

18.7.16

A SOMBRA


É nas terras do Sol
que a sombra se afirma
e permanece.
Nada em ti amanhece
ou anoitece 
que a sombra não vigie,
não persiga.
Cão a espelhar seu dono,
respeitando a distância,
fazendo companhia
na recta e no desvio.
Nada em ti acontece 
que a sombra não projecte,
não desvende,
não comande.
Não te cavalga,
a sombra.
Forra-te.
Contigo mora 
e se transforma 
no teu jeito de andar,
no teu gesto largo,
no teu gesto parco,
no novelo de mágoas
nas águas de teus olhos.
Se és um homem do Sol
respeita a sombra,
aprende a iluminar a escuridão.
Sem seu contrário 
nenhum homem cresce,
nenhum homem caminha
e se engrandece.

Licínia Quitério

8.7.16

UM RIO



Todos temos um rio que nos navega.
Um rio que nos promete travessias.
E nós lá vamos margem fora,
aquela onde nascemos,
o nosso olhar a projectar navios que vão e vêm,
pequenos, grandes barcos,
a cada um sua estrada de espuma,
todos prenhes de histórias de pescadores da fome,
de mercadores da gula,
de sonhadas perdições e achamentos.
Esse rio nos ensina a direcção do vento,
a força da corrente,
o oiro dos areais,
a fundura abissal,
a escama que brilha, rebrilha.
É esse rio, sina deste corpo, cor desta saudade,
que nos segreda:vai, 
na outra margem há um país.

Licínia Quitério

1.7.16

TORRENTE



Não tentes perceber o que escrevo. 
Eu estou sempre por fora do que escrevo. 
Salto sobre as palavras, agarro-as para logo as largar. 
Alguém que se atreva a domá-las, revoltas, insubmissas, impalpáveis. 
O gato salta sobre o pássaro, joga com ele a vida e a morte. 
Não há uma palavra que diga o intervalo entre a garra e a pena. 
Foi ontem que libertei um pássaro. 
Foi ontem que me libertei de mais uma morte.
Escrevo tudo isto a pensar em jogos inúteis, em seduções inúteis. 
Vou arrancando ervas e matando lagartas que comem as ervas. 
Não há uma palavra que diga o antes e o depois do que acontece quando liberto um pássaro ou esmago uma lagarta. 
Não há de facto uma palavra para vida e morte. 
Porque não tenho essa palavra, não tentes perceber o que escrevo. 
Lê, apenas, deitado na torrente que te leve. 

Licínia Quitério

21.6.16

POESIA

Ao fim de muitos anos de mãos e voz na massa, aprendi que para escrever poesia, dizer poesia, é necessária uma série de apetrechos que passam por gosto, vontade, sensibilidade, cultura, apuro técnico, noção de ritmo, interioridade, honestidade, insatisfação permanente, leitura de muitos e dos melhores Poetas do mundo. Resumindo: é tarefa duma vida, raramente conseguida. 
Aprende tudo isto e muito mais e incomparavelmente melhor quem ler e reler "Carta a um jovem poeta" de Rainer Maria Rilke.


Licínia Quitério

16.6.16

PESSOAS COMO MONUMENTOS



Pessoas como monumentos em ruínas.
Pedras gastas, fissuras favoráveis
à camuflagem dos líquenes.
A cobertura a ganhar transparências.
Dos antigos vitrais, os estilhaços.
Atentai na senhora do vestido de renda.
O resto da opulência na prata da bengala.
A pintura manchada do cabelo sobrante.
O bâton mal contido no orlado da boca.
A altivez mantida nas arcadas do olhar.
A abóboda das costas, inclemente, indecente.
O passo irregular das sandálias douradas.
Recusa o derrube, a velha fortaleza.
Junta as pedras.
Caminha.

Licínia Quitério

15.6.16

O LODO



Aprendemos a fingir que nada aconteceu, que somos ainda os mesmos a passear de mãos dadas pelos cais desertos, o cheiro do lodo a trazer-nos a velhice da cidade.
Tantas guerras passaram e nós à espera que a paz acontecesse, a grande paz que tínhamos lido, feita de troncos renascidos e de animais à solta, derrubadas as farpas da loucura.
Passou o tempo do aço, passou o tempo da renda, voltámos a passear nos cais do lodo e inventamos histórias iguais às verdadeiras.
Tão poucas certezas nos ficaram do mar de enganos que vivemos.


Licínia Quitério

10.6.16

OS HOMENS TRISTES


Há homens que atravessam a rua

sem olhar
Levam nos ombros pedaços da noite
e não há cor que os vista
São homens cinzentos 
indiferentes ao sol ou à borrasca
Quem os vê diz 
ali vão os homens tristes
mas nem eles sabem o tamanho
da tristeza ou da improvável alegria
O chão da rua conhece 
a cadência incerta
a leveza ausente
dos passos destes homens
Há quem lhes chame homens de bruma
porque vagos são
os seus contornos
Virá uma manhã sem homens tristes
Ninguém perguntará
para onde foram
Alguém escreverá a sua história
no livro branco 
do esquecimento
A rua permanece

Licínia Quitério



6.6.16

SUBIR


Subir até perder de vista
o que rasteja, o que se arrasta
na espuma do poder,

na lama da pobreza.
Ser andorinha que viaja
sem bagagem, sem outro anseio
que acompanhar a primavera,
regressar ao tecto, 

restaurar o ninho, renovar a vida.
Que isto de ser homem
e não passar além da própria sombra
tem que se lhe diga.

Quantas vezes ficaste
pasmado a olhar o alto, 

a pensar quem me dera
e por ali andaste grudado ao pó,
a ruminar saudades e remorsos,
sem vontade 
de saltar 
a corda da fortuna, de afrontar 
o limite da estrada, de pé descalço,
mão vazia.
É preciso que subas, 
a escada atada ao coração,
na voz um bater de asas.
Observa como se abre o voo.
Agora vai.

Licínia Quitério 

27.5.16

AS PEDRAS


Sobre as pedras passaram muitos anos,
a pele acrescentada de líquenes,
casulos, sujidades.
Viram trabalhos de homens
e ganharam saberes, utilidade.
 
Já foram muros, torres, fortalezas.
Se não se desmoronam, engrandecem.
Contam o tempo no desfolhar das árvores.
Aguardam pacientes o despontar dos gomos.
Guardam segredos de quem passa.
Resistem à tortura do aço e da inveja.
As árvores escutam o seu canto 

a louvar a liquidez do mar,
a acalmar a avidez do mar.
Cantam as pedras, choram. 
Nenhum homem as ouve.
Outras pedras virão
e em pleno do dia cantarão. 

Licínia Quitério

24.5.16

TENS TUDO


Tens tudo. 

Tens o vento de ontem, a chuva de amanhã. 
Tens o que sabes e é tanto. 
Podias se quisesses ter o comboio que te levou 
do princípio do mundo até ao fim do mundo.
Na asa da tarde os teus olhos vagueiam.
Vais rua abaixo e sorris porque tens um barco
lá longe carregado de vida, carregado de sal.
O teu contentamento é o vestido de luto
da andorinha a rasar-te a janela.
Incorrigível, estas histórias contas 
e as outras, das casas, dos bichos, 
das cidades, das mulheres, dos homens.
Contas até das horas que te vão contando.
Mentiras, muitas, de verdade poucas.
O que te importa é o céu ali à mão.

Licínia Quitério

17.5.16

MUDAR O MUNDO



Mudar o mundo assim
com um mover de mão
dar cor às folhas mortas
pintar um rosto no vidro da janela
subir a crina do cavalo até à nuvem
descer a nuvem até ao rés do prado
e mais
e mais
fazer e desfazer
derrubar reerguer
desconstruir
reinventar a inicial vontade de mudança
e não parar 
que parar é viver sem saber 
das muitas mortes por haver
Não paro e escrevo vida
com as letras de fonte

e finjo que não sei
da carne dos proscritos 
de mãos imóveis 
no gume das navalhas
atravessando o mundo que não muda

Licínia Quitério

9.5.16

O VIZINHO INVISÍVEL



Quando poetas se dão a prosas e se traduzem  acerca de suas vizinhanças.

É um convite, é um convite.


Licínia Quitério

8.5.16

NUM VERSO LONGO



Num verso longo é que se joga a vida
Um verso longo e branco com sabor a caminhos,
a lonjuras
Um verso de palavras sonoras
a tilintarem nas esquinas 
gastas pelos corpos 
vivos de manhã
e à noite adormecidos
Jogar às escondidas, fechar vogais, abrir vogais,
gritar ditongos ou cantá-los ou sofrê-los
Das consoantes fazer cordas, saltá-las, 
repeti-las, ignorá-las
O verso é longo e a vida
perdeu o gosto de esperar
Melhor deixá-lo ali na alvura da folha
a jogar com as palavras
um dominó de velhos à tardinha
antes que o sol se esconda
e o verso se recuse

e emudeça

Licínia Quitério

5.5.16

DIA A DIA



O dia a dia é um vulgar objecto
O charco a afogar os pés ou
A nuvem encostada à imaginação
A força nos braços ou os braços sem força
O carro que desce a rua ou o velho que a sobe
O dia a dia é o que passa diante dos meus olhos
E mais o que passa por dentro deles
E o que invento e faço e desfaço
Sem sair do lugar sem contar
A usura dos dias
E o dia a desfilar
Mais um dia outro dia
A somar a somar

15.4.16

GOSTO DE VÊ-LOS




Gosto de vê-los em bandos
à saída aulas.

Às vezes param para se beijarem,
ou tocam às campainhas das portas
e fazem de conta que não foram eles.
Têm a infância mal fechada nas mochilas
e um homem ou uma mulher a chamá-los
do lado de fora do corpo.
Cresceram mais do que os pais,
sabem coisas que os pais nunca souberam,
querem coisas que os pais nunca quiseram.
vivem num mundo que os pais nunca sonharam.
Uns centímetros mais e voarão
e já não passarão na minha rua

em bandos 
à saída das aulas.

Licínia Quitério

21.3.16

AS SEMENTES


Cansada sou da superfície.
Pode o poço secar.
Eu puxo a corda e espero.
O balde retorna à minha mão.
Pode o poço secar e então? O balde
É que me traz notícias da fundura.
Aqui em cima tudo desistiu.
Já ninguém tenta a travessia.
Lá em baixo há o cofre das sementes
Em sossego até que o corpo
Da demência se desfaça.
Daqui da superfície
Eu vou puxando a corda
Que me liga ao balde
Que me traz notícias
De areias secas
De sementes dormentes
Pacientes.

Eu espero.

Licínia Quitério

12.2.16

APAGA A LUZ


Apaga a luz, meu amor.
É de noite que as farpas da memória

nos trazem as rosas que tombavam 
nos quintais da infância,
esses eternos, imutáveis quintais
com muros que aprendemos a transpor,
a iludir os cães de guarda,
fiéis a seus donos infiéis.
Apaga a luz, deixa a noite 
escrever na almofada dos sonhos
os seus contos de fadas
que salvavam dos mares e da metralha
os corpos enjeitados
e os vestiam de brilhos e carícias
e lhes chamavam príncipe, princesa,
que os nomes de homem e mulher
se tinham afogado na viagem.
Não tardes, meu amor,
apaga a luz da rua, fecha a porta,
entra na noite, pensa em mim
como se fosse barca a navegar
no rio do esquecimento,
ao sabor da corrente, 
com a mansidão das aves
e o veludo dos limos.
Dorme. Deixa que passe
este tempo de hienas,
esta devora de inocentes,
esta mentira de capote de oiro.
Quando acordares talvez os homens
já tenham descoberto 
o princípio do mundo,
de outro mundo.
Dorme.

Licínia Quitério





6.2.16

A SECA



Em tempo de sequeiro não há chuva 
que alimente as fontes.
Tão funda a sede 
que nunca a areia se faz lama.
Não há dor, não há distância 
que os olhos humedeça.
Somos casca de árvore 
que lume algum afronta.
Ouvem-se ao longe ladainhas 
de palavras roucas.
Nossas bocas inúteis e o pássaro 
tombado no portal.
Nem toda a fome mata.
Toda a guerra seca.

Licínia Quitério

28.1.16

UMA VARANDA


Há uma varanda sobre o tempo
onde debruço os meus espantos

de haver serras, vales e o casario
feito de pedra e ausência.
É uma longa varanda de silêncio
aberta à novidade e à tradição
com que um país se faz e se desfaz.
A varanda tem um livro que se lê
ao despertar dos dias quando o sol
ganha altura e incendeia e os olhos
inundados recuperam do berço
ternuras maternais.
Varanda atenta às tardes, 
escudo de ventos, esteira de sossego,
e o livro aberto  a convocar 
memórias de invasores 
que de amores se perderam
pelas rubras mulheres,
pelas águas tentadoras.
Ao desdobrar da noite podem acontecer 
mistérios, nebulosas,
ou o trote louco dos cavalos.
Pode também acontecer que a varanda,
rendida à vibração nocturna, se recolha,
feche o livro e os homens adormeçam 
enquanto estrelas nascem,
estrelas morrem.

Licínia Quitério

14.1.16

MADRUGADA


Inefável a luz da madrugada
a convocar memórias
de terras nunca vistas

Os olhos arrasados
a tentar abarcar
a transfiguração 
Nas ramadas mais altas
avistam-se fulgores
cintilações de pássaros
Sonolentos os homens
de esperança no bornal
a encetar o dia
Um navio de espuma
atravessa a distância
do coração do homem
ao coração da terra
Com seu esplendor divino
aurora se apresenta
enfeitiça deslumbra
mansamente se esvai
No ar persiste o cheiro
das queimadas
A névoa sobre o rio
é um véu de bondade
a amaciar tristezas
Já os homens caminham
em direcção ao sol
Amanhã voltarão
de novo partirão
mais uma vez e outra
e a madrugada espreita
tremeluzente 
eternamente nova

Tão breve o que é perfeito
Tão demorada a noite

Licínia Quitério

5.1.16

PRENDO-ME


Prendo-me no ensaio desajeitado de ternuras
quando as gotas de chuva se desatam
nos vidros da manhã e a música da terra
se adivinha em pétalas de flores.
Os raros transeuntes deste dia têm
um jeito húmido de andar, uma moleza
envergonhada, ou são meus olhos
lentos de acordar.
Quem me dera notícias de alegria
atravessassem a rua do meu sonho
e a chuva fosse a embriaguez do vinho,
o carinho da mão a amortecer a dor,
a suave liquidez do adormecer.
Deste jeito será a paz com que me vivo, me prossigo.

Licínia Quitério

1.1.16

PASSAM PONTES

Passam pontes e pontes, 
sobre pálidas águas, terras ásperas. 
Imóveis quase sempre as pedras.
Frágeis pontes do princípio dos dias.  
Atravessam os anos e escurecem 
as pontes do ocaso, trémulas. 
Carregam as pontes, abatem os arcos, 
passam a dizê-las imprestáveis. 
Uma margem, outra margem e eles 
indecisos, entre a fome e a fome.
Há quem se atreva à travessia
em busca de razão e nem a ilusão vá encontrar.
Ficar pode ser um destino, partir é fugir dele. 
Se ponte não houver, a nado vão ou morrem.

É isto o que sabemos dos escravos
de novo em movimento, torpedeando
os pontos cardeais, chamando norte
ao que o norte perdeu, negando o sul
que depois de os parir os abusou.

Licínia Quitério   

23.12.15

TREM DE PASSAGEM


De passagem vamos, neste trem de ferro, 
a engolir paisagens, casas, 
terras que não guardam casas.  
Casas a espreitar os rios. 
Rios que estreamos,  rios que se mostram, 
rios que sabemos e se ocultam.  
Pontes sobre abismos.
Provocadores abismos, 
pavorosamente atraentes, 
brevemente apagados.
De corrida vamos, neste trem 

de partidas e chegadas. 
E as paralelas a guiarem-nos. 
E o trem obediente, coleante, 
bamboleante.  
Uma vontade de ficar, colado ao vidro, 
o vidro colado ao ferro, o ferro 
a correr no outro ferro, e nós 
a entontecer, a paisagem desfocada,
a vontade quebrada, a mão 
abandonada sobre o sono. 
O trem que vai, o trem que vem, 
que vai, que vem. 
Que vai.

Licínia Quitério   

18.12.15

ANJOS



Os anjos são assim. 
Bonacheirões, alados, 
rechonchudos, doirados. 
Pairam, espreitam, sorriem. 
Podemos avistá-los numa dobra 
da tarde, num adejar de pomba, 
por entre cortinados. 
Silenciosos, falam-nos. 
De olhos fechados, olham-nos. 
Imóveis, perseguem-nos. 
Neles revemos a bondade, 
o sossego, a leveza, 
a protecção na queda, 
o impulso na subida. 
Rimo-nos, e é de nós que rimos 
ao dizer que os anjos não existem. 
Calamos o desejo de acreditar em anjos, 
serenos, dadivosos, ternos. 
Dizemos anjo e pensamos homem, mulher, 
livres, férteis, sem dor e sem culpa, 
angelicais, apaixonados, 
tremendamente humanos.


Licínia Quitério

17.12.15

ÀS VEZES A GENTE VAI

Às vezes a gente vai
Há fumos que se levantam
Mas logo um sol nos desperta
E numa pedra embarcamos
Até ao rio de frescuras
Que noite fora lembramos







Licínia Quitério

6.12.15

A COR



Como se a cor da ternura
fosse céu ou fosse chão
e o fim do dia me desse
uma pena em cada mão
Licínia Quitério

2.12.15

BEIRA-RIO

Digo-te daqui da margem deste  rio
O sabor novo das papoilas
Como quem diz pequenas alegrias
E as atira ao despertar
Dum tempo de dormentes

Não serão rubras as papoilas
Que o longo sono as transformou
Lhes deu gargantas
Onde esconder os gritos
Onde ensaiar declarações
de amor e resistência

Mais te queria dizer
Mas o leito deste rio ainda sofre
As feridas da secura
Nos anos dos peixes velhos
Carnívoros medonhos

Digo-te das papoilas
do rio
Do sofrimento deste rio
Da grandeza deste rio

Digo-te 
Companheiro
Mergulhar bem fundo
Voltar à linha de água
Dizer que se é papoila
Vale a pena

É o que assusta os peixes
carnívoros medonhos

É o que te digo hoje
Daqui da beira rio
No meu dizer redondo
e imperfeito

Licínia Quitério

13.11.15

NOVO LIVRO


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